18.12.20

Os Calhamaços de 2020


Oi gente que ama livros, hoje quero compartilhar com vocês os calhamaços que eu li este ano. Eu gosto muito de um livrão, com muitas páginas e enredos complexos, mas me superei em 2020 e li livros imensos.

Vamos conferir?

David Copperfield (Charles Dickens) 1160 páginas -
 O livro nos traz David que nasceu em uma sexta feira à meia-noite, considerado um sinal de má sorte. O pai de David morreu antes de conhecer seu filho e David encontra apoio em sua mãe e em sua governanta, Peggoty. No entanto, a mãe de David sente a necessidade de ter um marido após ficar viúva. e em seguida se casa com Mr. Murdstone, um homem severo e insensível. Eles também acolhem em sua casa a irmã de Mr. Murdstone. Na convivência diária, os Murdstones tentam afastar o garoto até que o inevitável acontece: numa briga entre o Sr. Murdstone e David, o menino acaba mordendo a mão do seu padrasto após levar uma surra dele e seu destino acaba sendo em um colégio interno.
O romance é o mais autobiográfico do autor. Dickens usa incidentes de sua vida para criar um enredo, uma concentração de mundos morais e sociais numa tela ampla para contar sua história a partir do seu personagem-título, olhando para trás, sobre os altos e baixos da sua longa vida. O romance é uma crítica social de Dickens a uma sociedade vitoriana com poucas salvaguardas contra os maus-tratos aos pobres e, em particular, nos seus centros industriais.
A razão para este cenário é o fato de Dickens ter nascido na cidade de Portsmouth, Inglaterra, em 1812. Quando criança, ele mudou-se para Chathan, onde viveu uma infância agradável. Muitas cenas de sua infância estão entrelaçadas ao longo desse romance em particular. As habilidades de escrita de Dickens são óbvias. Um livro que pode ser lido por todas as pessoas, um romance fácil de entender, em que a escrita se move rapidamente. Rico em metáforas é um clássico que, segundo alguns de seus grandes leitores, pode ser considerado o seu melhor trabalho, inclusive, era o seu livro favorito entre todos os que escreveu.

Os Miseráveis (Victor Hugo) 1511 páginas
- O livro nos traz Jean Valjean, um homem que rouba um pedaço de pão levado pelo desespero e por isso foi condenado a trabalho forçado nas galés (que podemos entender como uma penitenciária) e teve que cumprir uma sentença de dezenove anos por causa de inúmeras tentativas de fuga. Quando termina sua pena e é colocado em liberdade, percebe que a condição de ex-prisioneiro nunca o abandonará e decide mudar de nome. É então que conhece Fantine, uma mulher que também teve uma vida difícil, tendo que deixar sua filha, Cosette aos cuidados de estranhos. Antes que Jean possa ajudá-las, o inspetor Javert se coloca no encalço dele, determinado a levá-lo a justiça por novos delitos. Anos depois, a vida destes personagens se cruza com o jovem Marius, um estudante engajado com a Revolução de 1832. 
O ponto alto do livro certamente é a crítica social contundente que acompanhamos ao longo da jornada dos personagens, expondo diversas feridas de nossa sociedade como a pobreza, a criminalidade, a injustiça, o abuso infantil, a prostituição e a forma como tratamos pessoas menos favorecidas. Apesar do autor não dar nenhuma lição de moral, a trama é tão forte e impactante que equivale a uma sucessão de “tapas na cara”. Ao mesmo tempo em que emociona, Os Miseráveis também causa desconforto por revelar uma realidade amarga para a qual fechamos os olhos muitas vezes. 

O Conde de Monte Cristo (Alexandre Dumas) 1304 páginas -
O livro nos traz Edmond Dantes, um jovem de 19 anos, marinheiro, que retorna para reencontrar o pai e a noiva, Mercedes Herrera após meses viajando a bordo do Faraó. Após a morte do capitão do navio, ele é designado a ser o próximo capitão do Faraó, porém, Edmond era alvo de inveja tanto pelo futuro promissor como marinheiro quanto pelo amor da bela Mercedes. Ingênuo, Edmond foi uma presa fácil para a inveja de Fernand Mondego, Danglars e Villefort. Fernand Mondego era primo de Mercedes e apaixonado por ela, o que faz de Edmond seu rival, enquanto Danglars o invejava por ter sido indicado como capitão do navio, cargo que Danglars queria. Juntos, os dois tramam contra Edmond ao escrever uma carta denunciando-o. Na carta, inventaram que Edmond era um espião de Napoleão Bonaparte, um crime grave na época em que a França estava sob o poder dos realistas. A denúncia talvez não tivesse sido levada a sério se não tivesse caído nas mãos do promotor Gerard de Villefort. O promotor não tinha nada contra Edmond, mas tinha que mostrar pulso forte contra os bonapartistas como disfarce e proteção a seu pai, que contrabandeava informação a favor de Bonaparte.
O fio condutor da narrativa é o desejo de vingança de Edmond e ele acredita desde o princípio que a morte não é o melhor castigo. Na obra, a vingança só é plena e válida quando causa muito sofrimento e dor aqueles que praticaram o mal, mas também traz mensagem de esperança de que dias melhores sempre virão. Mesmo que esteja nos momentos mais difíceis, é necessário o sofrimento extremo para poder usufruir de uma extrema felicidade.

A Menina Que Brincava com Fogo (Stieg Larsson) 601 páginas -
Este livro é o segundo volume da trilogia Millenium. Li este livro pela primeira vez em 2010, logo após ler o primeiro, Os Homens que Não Amavam as Mulheres, adaptado para o cinema duas vezes, pelo cinema sueco e americano. As duas adaptações são excelentes e isso tornou o livro bem popular, bem como suas sequências. O primeiro livro traz a história de Mikael Blonkvist, um jornalista condenado por calúnia após publicar uma matéria em que não pode confirmar suas fontes. Antes de ir para a prisão, é contratado por um magnata para que descubra o paradeiro de sua sobrinha desaparecida há mais de 40 anos. Para ajudá-lo, ele contrata Lisbeth Salander, uma mulher inteligentíssima, mas com pouca habilidade social que vai além de ajudá-lo, salvar sua vida. Este volume traz um outro plote, ainda mais envolvente do que o primeiro: temos Lisbeth sendo envolvida na cena de um assassinato triplo. Uma das vítimas é o tutor de Lisbeth que no primeiro livro desperta o ódio de todos os leitores sensatos do mundo e quando ele aparece morto, até nos questionamos se Lisbeth não é a assassina. 
Me lembrava que tinha gostado muito deste livro, mas fui surpreendida por amar a obra ainda mais nesta releitura, pois a lembrança afetiva era forte, mas agora pude absorver melhor várias nuances interessantes de uma boa narrativa. O fio condutor deste enredo se baseia em desmascarar autoridades políticas e policiais que também estão ligadas à infância de Lisbeth e isso torna a história muito intensa. As cenas de ação e perseguição são verdadeiras coreografias narrativas. Existe também muitas cenas de violência e algumas de cunho sexual, bem gráficas e desconfortáveis.

Casório (Marian Keyes) 644 páginas -
O livro nos traz a Lucy, uma mulher de vinte e poucos anos que vai a uma cartomante com suas colegas de trabalho. Ela não acredita muito nisso, mas acha divertido e quando as previsões para as amigas começam a acontecer, Lucy fica na expectativa que a previsão da cartomante de que ela seria pedida em casamento também se confirme. 
O livro é extremamente engraçado em determinadas partes. Lucy e as amigas são muito engraçadas tanto no trabalho quando no apartamento e eu ri alto em diversos trechos. Porém, quando a protagonista aborda sua depressão, o livro também imerge em uma zona sombria de autoconhecimento e medo. Algumas coisas me incomodaram nessa releitura e uma delas foi a própria personagem não entender que a depressão é uma doença como qualquer outra e que falar sobre isso só desperta preconceito em pessoas ignorantes. Ela não aceita a depressão como uma doença mental em função deste estigma da palavra e isso não é esclarecido ou melhor explicado na narrativa.


A Dança da Morte (Stephen King) 1247 páginas -
O livro nos traz a população mundial sendo eliminada por uma doença chamada de Capitão Viajante ou supergripe, que na verdade era uma arma biológica criada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos e liberada acidentalmente. Em menos de um mês, um número incontável de pessoas morre, deixando o mundo praticamente deserto. Os sobreviventes veem-se atraídos por forças opostas, onde os “bons” vão buscar abrigo sob a liderança de Mãe Abigail, uma senhora de 108 anos. Já os “maus”, se unem ao sinistro Randall Flagg, o homem escuro.
Em função da situação do mundo em 2020 pela Covid 19, a identificação é muito forte. Na parte em que o autor descreve os sintomas – febre, cansaço, tosse, dificuldade para respirar – é impossível não entender a sensação que ele quer passar e os personagens têm total aversão a qualquer pessoa que espirre ou tussa ao lado deles, algo que vivemos no Brasil desde março. Além disso, o livro relata morte rápida quando acometido da doença e vemos caminhões frigoríficos providenciados para guardar os mortos. Se eu tivesse lido este livro antes, passaria por este trecho achando que Stephen King estava sendo dramático e exagerado, mas visto o que acontece em nosso país, infelizmente, não pude achar a criatividade do autor mais sinistra do que de costume. A doença passeia pelo mundo de forma alegórica, como se de fato a morte esteja dançando entre as pessoas, levando com ela quem possa carregar.

E O Vento Levou (Margaret Mitchel) 804 páginas -
O livro nos traz Scarlet O’Hara, uma jovem de uma tradicional família de fazendeiros do sul dos Estados Unidos sonhando em se casar com o grande amor da sua vida, Ashley Wilkes que por sua vez, não tem a menor pretensão em se casar com ela. Contrariada porque Ashley se casará com Melanie, que julga ser inferior a ela, Scarlet se casa com o irmão de Melanie para causar revolta tanto em Ashley quanto em Melanie, mas ambos não estão nem um pouco preocupados com os desmandos de Scarlet. Entre uma pirraça e outra, ela conhece Rhent que se mostra interessado nela, mas Scarlet não tem olhos para qualquer outro homem que não seja Ashley, nem para o homem com quem se casou.
O livro traz uma trajetória intensa e sofrida de uma mulher que não aceita ser e ter menos que aquilo que lhe disseram que merecia. Ela passa por perdas, por altos e baixos e carimba sua vida com um amor não correspondido, características que poderiam fazer dela uma personagem admirável, mas a verdade é que Scarlet O’Hara é a protagonista mais insuportável de toda a literatura lida por mim na vida. Egoísta, mimada, mentirosa e desonesta, ela segue sem amadurecer por mais de 95% da trama e é impossível ter empatia por ela, apesar de entender que alguns acontecimentos na vida dela eram realmente muito ruins. 

Mulherzinhas (Loisa May Alcott) 682 páginas -
O livro nos traz a família March: Jo, Amy, Meg e Beth são as filhas de uma família humilde, mas muito amorosa. A narrativa começa com as meninas vivendo com a mãe enquanto o pai está na guerra, acompanhamos a saudade e a união delas para passarem por esse momento de forma determinada. As filhas são muito diferentes entre si, mas é bem claro o quanto se amam. Jo e Amy roubam o protagonismo em diversas partes, mas de forma geral, o livro conta a história das quatro de forma homogênea. 
Infelizmente, o livro não funcionou muito bem para mim porque com a boa experiência do filme, eu imaginava encontrar uma profundidade maior das personagens e apelo assertivo para o feminismo, o que não existe no livro. Encontrei uma história repleta de moral cristã e ensinamentos sobre como ser uma boa mulher. É inegável que a autora tenha bebido de águas bíblicas para construir o mundo das irmãs March e é compreensível que nós, leitores do século XXI, estranhemos aquelas regras tão duras e subservientes aplicadas a jovens mulheres. Nada é imposto ou aplicado as personagens que nos leve a pensar que elas não são felizes com a vida de esposa e mãe, entretanto em alguns momentos tudo aquilo me pareceu bastante artificial, como se as meninas realmente não tivessem muitas opções quanto ao seu futuro.

Uma Vida Pequena (Hanya Yanagihara) 784 páginas -
O livro nos traz Jude, Willen, Malcom e JB que se conheceram na faculdade e se tornaram bons amigos. O livro começa quando eles precisam encontrar um novo apartamento barato para morar, não podem se dar ao luxo de gastarem muito pois estão começando a vida profissional e encontram um imóvel que se encaixa nesse requisito na rua Lispenard em Nova York. A partir deste momento em que conhecemos a interação inicial entre os quatro jovens entendemos quem é quem. Willen é um rapaz bonito que sonha em se tornar ator, vem de uma família de origem escandinava e é ótima pessoa. Malcon é arquiteto, o único que vem de uma família que vive de forma confortável financeiramente. JB é negro, difícil, um pouco sem noção e artista plástico. As primeiras páginas do livro nos levam a acreditar que teremos a história destes quatro jovens no decorrer do enredo, mas em um dado momento, percebemos que Jude é o protagonista da narrativa e os outros orbitarão ao redor dele.
Não é um livro para todo mundo, essa é a única certeza que tenho, mas a experiência de leitura foi tão visceral e forte que procurei nas redes sociais pessoas que o tivessem lido para conversar e descobri o quanto o livro é extremamente popular fora do Brasil. Existem contas no Instagram dedicadas ao livro e o endereço na rua Lispenard se tornou um ponto turístico em função desta história. Camisetas, bonés, bolsas e uma infinidade de objetos levam a estampa do nome dos personagens e diversas pessoas tatuaram frases do livro em uma homenagem direta, o que prova que muitos se afeiçoaram ao enredo como eu e também desejaram que cada um dos personagens tivesse o seu final feliz.

Acordes Imperfeitos (Bia Carvalho) 648 páginas -
O livro nos traz a Amanda, uma jovem musicista que está de mudança para a pequena cidade de Paraíso. Seu pai realiza um trabalho parecido com o de coach e pediu que ela o ajudasse através de seu talento musical. Amanda ama música e toca lindamente seu caro violino. A família de Amanda é complexa, com uma irmã que morreu aos 14 anos (antes dela nascer) e sua mãe ficou tão abalada com essa perda que deu o mesmo nome da filha falecida para Amanda e espera que Amanda seja tão perfeita quanto a primeira filha. Amanda também tem uma relação difícil com o pai, que vive de aparência e insiste que ela nunca o decepcione, pois isso pode ser refletido no seu trabalho que tem como por objetivo ressaltar a vida de sucesso dele.
Eu achei a premissa bem gostosa e com o clichê de boa moça apaixonada pelo bad boy bem dentro do padrão até que a autora começou uma série de reviravoltas bem mal desenvolvidas que resultou em dramalhões pouco argumentados dentro do enredo. Diálogos forçados, cenas de ação e violência sem motivo que resultaram em muitas páginas desnecessárias. O uso da música também é bem discreto na trama, o que me deixou bastante frustrada e ao final do livro eu estava completamente sem paciência com os rumos convenientes que a autora escolheu. A narrativa se divide sob o ponto de vista do casal e a autora deixou passar uma sombra de preconceito nada agradável como por exemplo, classificar mulheres e pessoas de um modo geral com expressões como “esse tipo de garota” ou “esse tipo de gente”, sem respeitar a pluralidade. Me pareceu que para qualificar a protagonista era necessário desqualificar todas as pessoas que pensassem e agissem de modo diferente dela.

O Iluminado (Stephen King) 623 páginas -
O livro nos traz o Jack Torrance, um homem que está em um momento complicado de sua vida. Ele era professor, se envolveu em uma confusão e perdeu o emprego. Ele alimenta o sonho de ser escritor e já teve alguns trabalhos publicados, mas sabe que não pode se dar ao luxo de investir em uma nova carreira, por isso quando aparece a oportunidade de cuidar de um hotel que ficará fechado por todo o inverno, ele aceita o emprego e segue com a esposa Wendy e o filho Danny para lá.
Acho que este livro é o mais dinâmico e frenético do autor. Stephen King é conhecido por ser prolixo e detalhista, mas não perde tempo descrevendo espaços ou personagens neste enredo e parte para a ação com cenas que podem assustar e gerar apreensão no leitor, sensações que tive durante a leitura. Do momento em que as estranhezas do hotel começam a aparecer, a tensão aumenta e são sustos, temores e violência no decorrer do livro. Minha experiência com a narrativa foi imensamente superior a que tive com o filme, que de certa forma descaracterizou os personagens e os tornou caricatos. No livro, Wendy é forte e determinada. Sabe que apesar de amar loucamente o marido, precisa proteger a si mesma e ao filho da loucura dele. Danny por sua vez, é uma criança encantadora e não teve tanto espaço no filme para conquistar o público. Já Jack nos cria antipatia desde as primeiras páginas, o que só aumenta conforme ele se deixa levar por suas alucinações.

Estes foram os tijolos lidos em 2020. E você, leu algum livro acima de 600 páginas? Conta para mim nos comentários, vou adorar conferir.

Beijos

Um comentário:

  1. Olá,
    Também adoro um calhamaço, apesar de não ter lido muito deles nos últimos anos. Desses fiquei surpresa com Mulherzinhas, imaginei que fosse menor, quero ler Os miseráveis, que está na estante aguardando, e adoro de paixão não só A menina que brincava com fogo como toda a trilogia, que não é nada pequena. Arrasou nas leituras.

    Beijo!
    www.amorpelaspaginas.com

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