Eu Tenho um Nome (Chanel Miller)

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Ficha Técnica:

Nome Original: Know My Name
Autora: Chanel Miller
País de Origem: Estados Unidos
Tradução: Carolina Salvatici
Número de Páginas: 336
Ano de Lançamento: 2019
ISBN13: 9780735223714
Editora: Intrínseca
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Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 76º livro lido em 2022 e foi Eu Tenho um Nome (Chanel Miller). Esse é mais um livro que não sei onde peguei a indicação, mas se tornou um favorito da vida para mim.

Em 2016 um artigo do Buzzfeed explodiu em leituras e compartilhamentos. Era o texto da declaração de Emily Doe para seu agressor, lido no tribunal no dia da sentença. Era um texto sofrido, cru e passional sobre tudo que Emily Doe sofreu desde o dia em que foi estuprada por Brock Turner. 

Esse livro é sobre esses anos. É a história do estupro, do julgamento e da tentativa de recuperação. É sobre Emily Doe, que finalmente se apresenta como Chanel Miller e assume publicamente sua história e tudo o que sofreu até a publicação.

Se você tem gatilhos com estupro, cenas gráficas e descritivas de cenas de crime, julgamento, machismo, injustiça, representação de depressão e ansiedade, talvez essa não seja uma leitura indicada para você, mas acredito que deveria ser uma leitura para todos! 

É um livro que desperta em nós o desejo de estar alerta e atenta o tempo todo. Você tem que tomar cuidado com o que veste, não deve sair à noite sozinha. Tem que tomar cuidado com o que diz e com o que não diz, com o que bebe, nunca aceitar bebidas de estranhos e sempre olhar seu copo. Na verdade, você não pode ficar bêbada.

Porque se não fizer tudo isso, você OBVIAMENTE está querendo.

Isso é a cultura do estupro e machismo em que estamos inseridos e que quer nos fazer acreditar que nos protege. O livro me lembrou do quanto todas as mulheres do mundo são tolhidas de diversas liberdades para se protegerem dos homens. Somos ensinadas que mulheres que não fazem ou não agem de determinada forma, estão fadadas a serem estupradas, abusadas e desmoralizadas, ainda que elas sejam as vítimas da violência.

São anos de trabalho mental para desconstruir a “verdade moral”. Chanel Miller foi estuprada nos fundos de uma fraternidade de Stanford, atrás de caçambas de lixo, e não tinha memória de nada por estar bêbada. Não julgá-la é um exercício de empatia e humanidade que poucas pessoas conseguem fazer nos dias de hoje.

Nos condicionamos automaticamente a pensar que ela não deveria ter bebido tanto ao ponto de perder a consciência e esquecemos que isso não tem nada a ver com o crime em si. Estar bêbada em momento algum significa que ela merecia, queria ou estava disponível para ser violentada.

O livro me fez entender e refletir ATIVAMENTE que mulheres não são objetos que podem ser usados e descartados para os desejos de homens que acreditam que é para isso que nós servimos, principalmente se estivermos em situação de vulnerabilidade. Como mulher, talvez esse pensamento seja óbvio, por isso acredito que o livro precise ser lido principalmente por homens, porque a escrita da Chanel é tão didática e humana que é impossível não chegar a esta conclusão.

O livro pode ser um desafio e um marco para muitas pessoas, até mulheres que também culpabilizam as vítimas de abuso sexual. É MUITO IMPORTANTE perceber o quanto ainda é difícil culpar exclusivamente e imediatamente o agressor. Por isso histórias assim precisam ser lidas para que essa consciência seja incluída na humanidade.

Acompanhar os capítulos desse momento da vida de Chanel é sofrido. O primeiro é completamente dedicado ao dia do estupro, é longo, pesado e te destrói um pouco por dentro. E, o pior de tudo, é só o começo, pois depois de toda a humilhação de Chanel para a coleta de material para análise policial, as fotos, a invasão física depois da invasão pelo agressor, vem toda avalanche de negação, culpa e depressão.

Para mim, o ponto mais pesado de tudo (e é muita coisa que acontece) foi o julgamento. Dá muito nojo do advogado de defesa de Brock Turner e ainda mais nojo dele. Dá nojo da família dele, que parece ser uma família abastada, daquelas americanas brancas sentadas no seu trono de privilégio.

A tentativa de criar uma narrativa que favorecesse o estuprador montando uma imagem distorcida da Chanel é tão nojenta que é difícil passar pelas páginas. Cobrar dela detalhes minuciosos do dia do crime para mostrar que, como ela não se lembra do que aconteceu, não é possível dizer que ela não queria estar atrás de uma lixeira, jogada no chão sobre folhas de pinheiro, sendo abusada por um desconhecido. As justificativas de que o estuprador era um rapaz cheio de potencial e que Chanel está destruindo as oportunidades e o futuro dele são revoltantes.

O livro é muito intenso, sério e é impossível concluir essa leitura sem estar indignada com o universo. Foi uma leitura que acrescentou tanto a mim que me sinto privilegiada por ter lido e aprendido um pouco mais, por sair diferente e melhor após a leitura. Sem dúvida, é um livro que embora seja violento em diversos aspectos, sempre estará em minhas indicações.


Um pouco sobre a autora:
Chanel Miller é escritora e artista, formada em literatura pela Universidade da Califórnia. Eu tenho um nome é o seu único livro publicado no Brasil.
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Ivi Campos

46 anos. De todas as coisas que ela é, ser a mãe do André é a que mais a faz feliz. Funcionária Pública e Escritora. Apaixonada por música latina e obcecada por Ricky Martin, Tommy Torres, Pablo Alboran e Maluma! Bookaholic sem esperanças de cura, blogueira por opção e gremista porque nasceu para ser IMORTAL! Alguém que procura concretizar nas palavras o abstrato do coração.




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