7.10.20

Pátria (Fernando Aramburu)

Ficha Técnica:
Nome Original: Patria
Autor: Fernando Aramburu
País de Origem: Espanha
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht
Número de Páginas: 512
Ano de Lançamento: 2019
ISBN: 978-85-510-0494-4
Editora: Intrínseca

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 69º livro lido em 2020 e foi Pátria (Fernando Aramburu). Meu interesse por esse livro surgiu ao ler uma resenha sobre o enredo que trazia um pouco da vivência no chamado país Basco, uma região dentro da Espanha que não se reconhece como espanhola. Já tinha lido e assistido filmes sobre a Catalunha, região espanhola que também deseja a separação do país, mas não conhecia nada do país Basco e fiquei bem curiosa.

O livro conta a história de duas famílias que vivem no País Basco (fronteira entre França e Espanha) que foram unidas por muito tempo. Bittori e Miren são as matriarcas dessas famílias, mas no início do livro elas já não são próximas há um bom tempo. Nessa obra, o autor nos conta as influências do ETA (Euskadi Ta Askatasuna – “Pátria Basca e Liberdade”) nessas duas famílias – de um lado, a perda para o terrorismo daqueles que buscam pela liberdade e do outro, a militância e o nacionalismo puros. Quando o cessar-fogo é anunciado, então é hora de buscar o perdão.

O livro é escrito em terceira pessoa, com foco principalmente em Bittori e Miren. Outros sete personagens se dividem na narrativa, todos da família destas mulheres. Ao passo que a história começa com o cessar-fogo do ETA, no presente, o autor volta muito ao passado para nos colocar em perspectiva de tudo aquilo que moldou quem são essas pessoas, depois da “trégua” que o grupo terrorista dá – e que ninguém sabia se seria para sempre ou apenas temporário. O autor focou sua narrativa nesse passado, com inserções do presente para mostrar a que ponto as coisas chegaram pela “liberdade” de um país.


O autor não se preocupa com a linearidade da história e dos fatos. Como disse, é uma mistura entre passado e presente, às vezes sem pré-anúncio, uma vez que o autor não coloca artifícios para facilitar como datas e deixa para que a própria narrativa mostre que não estamos mais no presente. Se pararmos para pensar, levando em conta o ponto em que estamos no passado e no presente, faz todo sentido. Tudo é muito ágil e pode parecer confuso, mas não é, em poucas páginas você percebe como o autor conta essa história. Outro ponto positivo é que os capítulos são curtos, o que deixa a leitura mais fluída e contrasta com uma narrativa mais diferente, com poucos diálogos.

Algo interessante na narrativa é a forma como em alguns momentos os pensamentos ou falas dos personagens (principalmente das protagonistas) são inseridos no meio da narração, apenas uma palavra, interjeição ou frase. É perceptível que a fala não é mais do autor, parece que autor e personagem conversam entre si e nós leitores observamos essa interação, o que deu mais vida à história. 


Sobre os personagens, Bittori se tornou uma das melhores personagens que já encontrei nos livros. Ela é verdadeira, direta, muitas vezes mal-educada, mas tão fiel aos seus princípios que é impossível não admirá-la. Miren se expressa e se posiciona com tanta firmeza quanto Bittori. 

O livro trabalha dois temas muito intensos. Quando o foco é nacionalismo, nos deparamos com agressividade e terror. Quando o autor relata as relações humanas, a obra se torna mais leve. Esse contraste é muito importante para que o leitor não mergulhe apenas no sangue e na violência que o ETA trouxe para esse país, mas também não pense que está tudo bem, que são apenas picuinhas de família e deixe o terror de lado. A obra tem os dois extremos: há o patriotismo ferrenho que quer ser conquistado a força, mas há também os típicos problemas de famílias que todos, vez ou outra, enfrentam.

É um livro sobre nacionalismo sim e mostra como a luta pela liberdade do País Basco muda a vida das pessoas, mas também aborda preconceito e diferença de línguas (basco e castelhano). O ETA  entra como coadjuvante, mas está presente nas entrelinhas em toda a história, o que nos leva a querer saber mais sobre esse movimento e suas consequências. 


Penso nessa história como algo parecido a se visitar uma cidade desconhecida: você não sabe o que se come, que idioma falam e o que acreditam ser certo ou errado. O País Basco é isso para mim, algo muito longe do conhecimento comum e o livro me apresentou algumas características através de duas famílias tradicionais que apesar de amigas se viram em lados opostos em um conflito. A escrita do autor passa essa sensação, nos primeiros capítulos, as coisas são novas e demoram a “engrenar”, mas logo que você conhece melhor, se acostuma e gosta da experiência. 

Este livro trouxe uma história forte de amizade e laços que podem se romper mesmo amarrados por longos anos. Um livro que demonstra família, luta, perseverança e ideais e despertou em mim uma curiosidade intensa em conhecer mais sobre essa região da Espanha que com certeza vou procurar aprender mais.

Amei!


Um pouco sobre o autor: Nascido em San Sebastian em 1959, Fernando Aramburu tem licenciatura em língua e literatura espanholas pela Universidade de Zaragoza. É autor de quatro coletâneas de contos e de outros nove romances que lhe garantiram prestigiosos prêmios, como o Mario Vargas Llosa e o da Academia Real Espanhola. Pátria, seu primeiro e único livro publicado no Brasil até o momento, é também seu romance de maior sucesso, publicado em 29 países, vencedor dos prêmios Nacional e da Crítica de Narrativa Castelhana, Euskadi, Strega Europeo, entre e outros, e com direitos audiovisuais vendidos para série. Aramburu mora na Alemanha desde 1985.

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