As Últimas Testemunhas (Svetlana Aleksiévitch)

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Ficha Técnica:

Nome Original: Оctahhi Cbiikn 
Autor: Svetlana Aleksiévitch
Tradução: Cecília Rosas 
País de Origem: Ucrânia
Número de Páginas: 272
Ano de Lançamento: 2018
ISBN: 9788535931518
Editora: Companhia das Letras
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Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 52º livro lido em 2022 e foi As Últimas Testemunhas (Svetlana Aleksiévitch). Meu interesse pela leitura surgiu ao ver que o pano de fundo histórico era a Segunda Guerra Mundial, algo que sempre me interesso.

O livro traz uma centena de relatos de adultos que vivenciaram a Segunda Guerra Mundial durante a infância. O livro é todo marcado pelas vozes dos entrevistados e as conclusões da leitura ficam a cargo de cada leitor.

Os relatos, coletados entre os anos de 1978 e 2004 e somente traduzidos para o português em 2018, trazem o modo como cada adulto, na época criança, viu, sentiu e viveu a guerra. Eram crianças de 2 a 14 anos, com exceção de algumas que nasceram a partir de 1941, e de um garoto que nasceu no ano em que o conflito acabou (1945), mas que parece ter vivido a guerra tão intensamente quanto os demais, quando afirma: “Nasci em 1945, mas lembro da guerra. Conheço a guerra”.

Ao iniciar a leitura, busca-se uma apresentação, uma contextualização do que virá, mas a interferência explícita da autora se restringe às citações tomadas como prefácio; à apresentação de cada entrevistado com seu nome, a idade que tinha quando a Alemanha invadiu a União Soviética, em 1941 e a profissão que exercia na época em que Svetlana o entrevistou; e por fim, à seleção da parte do relato a ser apresentada. No mais, Svetlana dá voz aos entrevistados. São vozes que chocam, assustam, emocionam, indignam, provocam compaixão e deixam o leitor atônito.

Entre pausas, choro, verbalização do quanto é insuportável relembrar e afirmação de que pelo mal que lembrar faz preferem não recordar, eles relembraram e contaram, o que faz pensar que a autora, cuja prática com esse tipo de trabalho é reconhecida, deve ter conseguido construir uma relação de confiança e ou demonstrar a importância de suas histórias serem contadas, e assim conseguiu se colocar, verdadeiramente, na posição de escuta. Apesar do sofrimento que poderia lhes causar a rememoração daquelas vivências, com certeza perceberam na autora uma possibilidade de escuta de suas vozes, vivências e como resultado o leitor veio a conhecer suas histórias.

As experiências, ainda que do mesmo “evento” e que, de certa forma compõem uma memória coletiva, são individuais e, portanto, relatadas de forma particular por cada um dos entrevistados e trazem vozes que destoam da história oficial.

Ao pensar na infância como um período em que os sujeitos deveriam ser cuidados e protegidos por adultos, mereciam ter tempo para brincar, estudar e vivenciar momentos de lazer entre seus pares, pensar uma infância vivida na guerra, com crianças assumindo papel de adulto de modo aparentemente naturalizado, é certamente chocante para quem imagina os fatos à distância.

No geral, os relatos demonstram que todas as crianças viveram situações que ninguém, independentemente de idade, deveria viver. Viram as mais diversas crueldades. Viram seus pais serem fuzilados e jogados em valas, crianças serem queimadas ou fuziladas, adultos serem enterrados vivos, avós mortos, pessoas caídas cheias de marcas de tiros, comunidades inteiras sendo queimadas. Elas caminhavam entre mortos, entre tantas outras brutalidades. Eram crianças pequenas afastadas de seus pais, deixadas sozinhas e que por vezes, tiveram de cuidar de seus irmãos, ainda menores, sem ter o que comer e beber, sem saber o que fazer, para onde ir e a quem recorrer. Sentiam tanta fome que a vegetação por onde passavam era devastada e dividida entre os sobreviventes como o único alimento. Na falta absoluta de comida, a água com cheiro do couro da cinta velha fervida virava sopa e terra com leite derramado virava produto caro entre as terras vendidas como alimento. O medo era tanto que houve quem tenha ficado sem voz por mais de ano ou quem tenha esquecido o próprio nome e a própria história. Foi um período em que os orfanatos passaram a ser a casa de muitas crianças, poucos foram os que reencontraram os pais.

A leitura de As últimas testemunhas apresenta um período histórico-social extremamente dramático e cruel, que causou muito sofrimento e deixou marcas definitivas em muitas pessoas, mas esse quadro confirma, ao mesmo tempo, que memória mesmo influenciada ao longo do tempo e por diversas formas pelo meio social, continua sendo um ato e uma arte pessoal de lembrar os acontecimentos. Somente ouvindo essas pessoas é possível montar o “mosaico” que é a história.

É preciso continuar ouvindo as memórias subterrâneas, como faz Svetlana, de modo a trazer à tona e manter viva a história que a história oficial gostaria de esquecer.


Um pouco sobre a autora: É uma renomada escritora ucraniana, vencedora do prêmio Nobel de Literatura 2015. Estudou jornalismo na Universidade de Minsk, turma de 1967. Desde os seus dias de escola já tinha escrito poesia e artigos para a imprensa escolar. Foi jornalista da revista literária Neman de Minsk, para a que escreveu ensaios, contos e reportagens. O escritor bielorrusso Ales Adamovich inclinou-a definitivamente para a literatura apoiando um novo género de escrita que denominou "novela coletiva". Nos seus textos, que caminham entre a literatura e o jornalismo, usa a técnica de colagem justapondo testemunhos individuais, com o que consegue aproximar-se mais à substância humana dos acontecimentos. Usou este estilo pela primeira vez no seu livro 'A Guerra Não tem Rosto de Mulher' (1983), em que a partir de uma série de entrevistas aborda o tema das mulheres russas que participaram na Segunda Guerra Mundial.

Seus livros publicados no Brasil são:
  • VOZES DE TCHERNÓBIL
  • A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER
  • O FIM DO HOMEM SOVIÉTICO
  • AS ÚLTIMAS TESTEMUNHAS
  • MENINOS DE ZINCO
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Ivi Campos

46 anos. De todas as coisas que ela é, ser a mãe do André é a que mais a faz feliz. Funcionária Pública e Escritora. Apaixonada por música latina e obcecada por Ricky Martin, Tommy Torres, Pablo Alboran e Maluma! Bookaholic sem esperanças de cura, blogueira por opção e gremista porque nasceu para ser IMORTAL! Alguém que procura concretizar nas palavras o abstrato do coração.




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