14.12.20

Séries do Meu Coração #47 I May Destroy You


Oi gente que ama livros, hoje venho com mais um post da coluna Séries do Meu Coração e compartilharei com vocês meu amor por mais uma série apaixonante.

A série do mês é I May Destroy You.

Londrina de 32 anos, filha de ganeses, a diretora, roteirista e produtora da série, Michaela Coel, cria para si a figura de Arabella, uma escritora que debutou com um livro baseado em tuítes e agora precisa entregar o temido segundo romance para uma grande editora de Londres. Com o prazo se esgotando, ela pretendia passar a noite na editora para finalizar o livro, mas recebe um convite de um amigo para ir beber alguma coisa. Reencontra amigos e acaba em uma noite de farra. Ela acorda em um bairro longe de onde estava e não se lembra de muitas coisas da noite anterior, mas flashes de memória deixa claro que Arabella foi estuprada. A série se baseia no processo de cura dessa experiência, ao mesmo tempo em que Arabella se descobre pessoal e profissionalmente, tanto na relação com a família imigrante quanto nas trocas com amigos e parceiros sexuais, numa das cidades mais cosmopolitas do mundo.

Coel revelou o abuso em 2018 durante um festival de TV em Edimburgo. Ela lembra que estava trabalhando para entregar um episódio de Chewing Gum na manhã seguinte e fez uma pausa para beber com colegas; depois de um blecaute de memória, ela se vê finalizando o roteiro pela manhã e mais tarde percebeu que havia sido drogada e violentada por estranhos no meio da madrugada. Essa experiência é adaptada em I May Destroy You com variações de situações e personagens, mas a própria presença de cena poderosa de Coel, aliada a um tom francamente confessional, já indica logo de cara que há muito de autoficção no relato, mesmo para quem não conhece a história por trás da série.


O fato de I May Destroy You ter sido precedida pela revelação do abuso real de Coel transforma a experiência de assistir à série, mas não é um pré-requisito. Na verdade, ela se estrutura mais num jogo de controle narrativo que a roteirista sugere ao seu espectador-confidente. Ela não quebra a quarta parede mas estabelece um contrato de confiança. Esta é uma história de uma alegria de viver interrompida – Arabella era a espontaneidade em pessoa até ser forçada a desenvolver um olhar cínico do mundo – e então I May Destroy You coloca o público no mesmo lugar: toda situação cômica ou minimamente inocente será apenas um intervalo entre estados permanentes de consternação.


A série traz temas fortes e os apresenta ao público sem frescuras. Expõe abusos, amizades complexas, carência e medo, mas de uma forma que nos leva a uma reflexão sobre como lidamos com nossos traumas e o que fazemos com eles ao longo do tempo. Com nuances de humor, a série não diminui os assuntos trazidos, mas os suaviza com algumas cenas divertidas.


Embora a série tenha se tornado uma sensação entre as novas séries de 2020, eu não vejo muitas pessoas falando dela e me sinto na obrigação de divulgá-la por sua importância e qualidade técnica. A série é pertinente e muito bem-feita.

Enfim, assistam!

Trailer:

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