1.10.21

Garotas Mortas (Selva Almada)

Ficha Técnica:
Nome Original: Chicas Muertas
Autora: Selva Almada
País de Origem: Argentina
Tradução: Sergio Molina
Número de Páginas: 128
Ano de Lançamento: 2018
ISBN-13: 9788593828744
Editora: Todavia

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 74º livro lido em 2021 e foi Garotas Mortas (Selva Almada). Eu não vou saber indicar em qual blog ou Instagram eu vi a recomendação deste livro, apenas sei que fiquei instigada a fazer a leitura.

O feminicídio é um problema global. Em um único mês no Brasil, é capaz de termos mais de 100 casos notificados de mulheres que foram assassinadas por maridos, ex-companheiros, namorados, irmãos e desconhecidos. Nascer mulher é um fator de risco em vários lugares do mundo, e em conjunto, vivemos sob a expectativa terrorista do medo. Mesmo quando solucionados, esses crimes permanecem no imaginário coletivo das mulheres, servindo de alerta para o fato de que nem dentro de nossas próprias casas estamos seguras.

Mas para além dos crimes solucionados, a narrativa de Selva Almada em Garotas Mortas, investiga histórias sem final: a morte sem conclusão de três garotas na década de 1980, na Argentina. Entre 15 e 21 anos, as garotas Maria Luisa Quevedo, Andrea Danne e Sarita Mundín tiveram suas histórias interrompidas de forma violenta, e mesmo 30 anos depois do acontecido, a morte dessas meninas permanece um mistério.

No Brasil, temos a nossa própria cota de garotas mortas sem culpados. Em 1973, em pleno governo militar, a morte de uma menina de 7 anos em Brasília, Ana Lídia, abalou a tranquilidade da cidade que parecia uma pacata capital. Após 22 horas do acontecido, o corpo de Ana Lídia foi encontrado em um matagal, nua e violada, a criança tinha marcas de abuso físico e sexual. O que nunca encontraram foram os verdadeiros culpados. O crime de 40 anos atrás permanece sem solução.

Da mesma forma que, pessoalmente, a história de Ana Lídia reverbera em meus pensamentos desde a infância da autora, Selva Almada conta a história das garotas mortas argentinas a partir de sua relação com os crimes: Andrea Danne foi assassinada com uma punhalada no peito, enquanto dormia em seu quarto, aos 19 anos. Não havia sinais de roubo ou arrombamento, nem de que ela tivesse lutado para sobreviver. A ideia de que uma garota poderia ser morta em sua própria casa durante o sono, perseguiu a autora durante sua adolescência. Andrea Danne foi morta quando Selva Almada tinha apenas 13 anos. A partir daí, muitas outras foram assassinadas, e costurando as histórias de sobreviventes, dos crimes solucionados e dos sem resolução, a autora faz uma investigação jornalística literária, em que conecta sua vida e impressões pessoais com a história dessas meninas e mulheres violadas.

Maria Luísa Quevedo tinha 15 anos quando desapareceu. Era uma garota miúda, aparentava menos que 13 anos, e trabalhava como empregada doméstica na casa de outra família. Saía do trabalho as 15h da tarde, depois de lavar a louça do almoço. No dia 8 de dezembro de 1983, Maria Luísa saiu da casa onde trabalhava e nunca mais foi vista com vida. Seu corpo foi achado dias depois, em um terreno baldio, com marcas de enforcamento pelo cinto que usava, comprado pela mãe. As circunstâncias de sua morte, assim como o motivo e o autor do crime, nunca foram encontrados.

Sarita Mundín desapareceu depois de sair com o namorado, que era casado com outra mulher. Ela tinha 21 anos, um filho e uma vida difícil. Depois de anos desaparecida, a polícia encontrou uma ossada que supostamente seria dela. Com o desenvolvimento dos testes de DNA, a família decidiu comprovar se os restos mortais enterrados eram de Sarita. Não eram. Outra garota morta ocupava sua cova, e seu paradeiro nunca foi descoberto. A mãe acredita que ela pode ainda estar viva, pois nunca veio visitá-la em seus sonhos.

Essas garotas mortas seguiram a jornalista durante toda sua vida, reaparecendo nas lembranças a cada nova morte. A própria Selva possui suas histórias particulares de medo da violência masculina e de sobrevivência a abusos, como muitas de nós. É impossível não relacionar o destino das garotas mortas com a realidade atual, em que mulheres ainda são assassinadas pelo simples fato de ter nascido do sexo feminino. A cada nova morte, nova notícia de feminicídio, somos levadas novamente ao estado perpétuo do medo, que não se abranda nem dentro de nossas casas ou ao lado de nossos companheiros. Os nomes se multiplicam durante o livro e as histórias se repetem.

“Garotas Mortas” é um livro doloroso, que fala intimamente com todas as mulheres e expõe uma realidade terrível, um destino infelizmente comum para várias meninas da América Latina. O feminicídio, assim como a falta de justiça para as vítimas e seus familiares, é uma epidemia generalizada no continente, tornando as Américas o lugar mais letal para mulheres no mundo. Nosso índice é de 9 mortes de mulheres diariamente. Se isso não representa um total estado de guerra contra as mulheres, nós realmente não sabemos o que representaria.

É um livro tenso, triste, forte, mas relevante e que merece atenção.


Um pouco sobre a autora:
Considerada uma das vozes mais poderosas da literatura argentina e uma das mais promissoras da ficção latino-americana, publicou seus primeiros contos na revista Análisis, de Paraná. De 1997 a 1998 dirigiu a revista CAelum Blue. Recebeu rasgados elogios com seu primeiro romance, El viento que arrasa (2012), considerado o melhor livro do ano no momento da publicação, e foi finalista do Prémio Tigre Juan (Espanha) com o romance Ladrilleros (2013). É ainda autora de um livro de poesia e dos livros de contos Niños (2005), Una chica de provincia (2007) e El desapego es una manera de querernos (2015). Garotas Mortas (2014), o seu romance não ficção, foi finalista do Prémio Rodolfo Walsh, da Semana Negra de Gijón (Espanha), para a melhor obra de não ficção de género negro. A sua obra encontra-se traduzida para português, francês, italiano, alemão, holandês, sueco e turco. 

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