Eu Que Nunca Conheci os Homens (Jacqueline Harpman)

sexta-feira, 4 de março de 2022

Ficha Técnica:

Nome Original: Moi qui n'ai pas connu les hommes
Autor: Jacqueline Harpman
País de Origem: Bélgica
Tradução: Diego Grando 
Número de Páginas: 192
Ano de publicação: 2021
Publicação original: 1995
ISBN: 9786555530445
Editora: Dublinense
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Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 17º livro lido em 2022 e foi Eu Que Nunca Conheci os Homens (Jacqueline Harpman). Meu interesse pelo livro surgiu quando soube que o livro se tratava de uma distopia com cunho feminista. Parti para a leitura muito animada, mas encontrei muito mais que isso.

O livro é narrado em primeira pessoa por uma menina, a mais nova dentre as 39 mulheres que vivem enjauladas em um porão vigiado por guardas a todo momento. A narradora e protagonista do livro não tem nome. Entre as outras mulheres que convivem na jaula, ela é chamada apenas de “Pequena“. Nenhuma das mulheres sabe como ou por que estão ali e também não fazem ideia de em qual cidade, estado, país ou planeta estão.

Conhecer essa história a partir do ponto de vista da garota, a mais nova entre as mulheres, é o que torna a experiência de leitura desse livro tão única e especial.

A garota que nos conta a história cresceu entre as mulheres e, desde muito nova, sua vida se resume à jaula e à convivência com as mesmas mulheres. Ela não tem memórias da vida antes disso e desconhece a maioria das coisas comuns da vida “normal” sobre as quais as mulheres tanto conversam entre si: amor, homens, banheira ou toalha não significam nada para ela.

Enquanto todas as outras mulheres constantemente rememoram esse passado tão cheio de vida, ela é apenas uma ouvinte vazia dessas conversas, pois nada daquilo parece se encaixar em sua realidade. Sua infância é feita de ouvir essas conversas e tentar construir em sua mente algo que se encaixe na imagem dessas coisas, sentimentos e ações.

Conforme cresce, a menina passa a entender como seu mundo é limitado, sua vida é diferente e como as experiências que ela nunca teve fazem falta. Nesses momentos, a garota se questiona muito sobre sua própria humanidade e o significado da sua vida. É desse modo que a autora nos leva a pensar junto com sua personagem: o que nos faz mais ou menos humanos? O que define nossa humanidade?

Estudiosos como Hannah Arendt, Maurice Halbwachs e Pierre Nora se debruçam em estudos sobre a importância da memória coletiva e da vida social para nossa formação e desenvolvimento, algo que se constitui como uma condição para a humanidade. Mas se tudo isso é tirado de nós, o que sobra? Durante o relato, a personagem deste livro vive atormentada por essas questões.

A história é uma jornada de esperança dessas mulheres de retomar ao que suas vidas significaram um dia. Já para Pequena, a esperança é conseguir viver essas experiências. No entanto, muitas vezes, exaustas de acreditarem por tanto tempo em vão, as mulheres vivem anestesiadas. É a garota que constantemente carrega sozinha o peso da esperança, alimentada da possibilidade de realmente viver em um mundo onde sua existência faça sentido.

É interessante perceber também, como a escrita da autora faz jus à sua personagem. Como a menina que narra a história tem uma visão limitada de mundo, a história é direta e a escrita objetiva. No entanto, não deixa de ser brutal e avassaladora em muitos momentos, principalmente quando a personagem reflete sobre a vida ou a situação em que se encontra.

Jacqueline Harpman é uma belga de origem judaica que, além de escritora, foi também psicanalista. Durante a juventude, a autora viu de perto a invasão e violência nazista no próprio país, de onde foi obrigada a fugir com a família para Casablanca até o final da guerra.

Refletindo sobre esse momento da vida da autora e o próprio contexto histórico do nazismo, é possível traçar alguns paralelos entre a história e a realidade e perceber que muitas vezes, por mais surreal que possa parecer, a ficção está mais próxima do que imaginamos.

O fato de acompanharmos mulheres afastadas de suas realidades e presas, usadas como algum tipo de experimento, relembra os campos de concentração do nazismo, por exemplo. Além disso, durante o período de guerra, muitas crianças cresceram isoladas e abandonadas, vivendo muito daquilo que a protagonista desta narrativa viveu: deixadas à própria sorte, sem saber quem são ou como seguir em frente.

Trazendo a discussão para o presente, também é possível pensar em como história e memória são assuntos cada vez menos discutidos e valorizados a cada dia que passa. Um exemplo é a discussão da não obrigatoriedade de disciplinas como História, Geografia e Sociologia na grade escolar presente na proposta do Novo Ensino Médio. Isso reflete no apagamento e esquecimento de memórias fundamentais para a nossa formação enquanto ser social.

Assim, a autora nos faz pensar no passado como um exemplo concreto e as possíveis influências disso no presente e futuro, trazendo seus personagens e problemáticas para discussões além da ficção.

À primeira vista, solidão e esperança parecem palavras controversas de se usar em uma mesma frase. É como se para ter esperança fosse necessário apoio, amigos, família, amizade, alguém em quem confiar. Enquanto a solidão é um abismo, sem nada, nem ninguém… confiar em quê? No entanto, ao ler esta distopia foram essas as palavras que ficaram na minha cabeça.

Quando se trata de histórias distópicas, com realidades devastadas e corrompidas onde tudo parece fugir do poder humano, pouco importa a combinação semântica, mas como aquilo refletirá quando interpretado para nossa realidade. Neste livro, a autora brinca com muitos elementos que parecem antagônicos e impossíveis juntos para contar a história de 39 mulheres e uma menina.

Eu fui impactada por esta narrativa e amei demais!


Um pouco sobre a autora:
Jacqueline Harpman (1929-2012) foi uma escritora e psicanalista belga de origem judaica. Sua vida foi marcada na juventude pela invasão nazista do país, que obrigou sua família a fugir para Casablanca até o final da guerra. Depois de estudar literatura francesa, ela começou sua carreira médica, mas contraiu tuberculose e não conseguiu completar os estudos. Formou-se em psicologia e depois em psicanálise, que exerceu desde então até sua morte. Publicou seu primeiro trabalho em 1958, mas parou de escrever depois de oito anos; retomou sua carreira literária duas décadas depois e lançou quinze romances, que lhe renderam vários prêmios literários, incluindo o Médicis, em 1996. Eu Que Nunca Conheci os Homens é o seu único livro publicado no Brasil.

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Ivi Campos

46 anos. De todas as coisas que ela é, ser a mãe do André é a que mais a faz feliz. Funcionária Pública e Escritora. Apaixonada por música latina e obcecada por Ricky Martin, Tommy Torres, Pablo Alboran e Maluma! Bookaholic sem esperanças de cura, blogueira por opção e gremista porque nasceu para ser IMORTAL! Alguém que procura concretizar nas palavras o abstrato do coração.




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