Pele Negra, Máscaras Brancas (Frantz Fanon)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Ficha Técnica:
Nome Original: Peau Noire, Masques Blancs
Autor: Frantz Fanon 
País de Origem: França 
Tradução: Sebastião Nascimento
Número de Páginas: 320 
Ano de Lançamento: 1955
ISBN-13: 9786586497205
Editora: Ubu 

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 92º livro lido em 2021 e foi Pele Negra, Máscaras Brancas (Frantz Fanon) Essa foi mais uma feliz escolha para compor minha TBR de Novembro em função do mês da consciência negra.

O que Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon, nos convida a pensar e fazer? Uma maneira de começarmos um livro, assim como terminá-lo, é refazer as perguntas do autor. De um modo mais geral, Fanon faz um convite explícito para interrogarmos como a violência dos processos de colonização e racismo faz que a humanidade das pessoas negras seja rasurada. Na busca pela nossa humanidade, o racismo impõe às pessoas negras, máscaras brancas. De acordo com Fanon, nessa relação de opressão e violência sistemática e cotidiana, as pessoas brancas também estão desumanizadas. Tema que continua bastante atual no Brasil, ainda mais no momento em que vivemos,, de lutas antirracistas e questionamento dos privilégios da branquitude. 

Antes disso, é preciso situar Fanon. Num registro, ele foi um homem negro de classe média nascido na Martinica, ilha caribenha controlada até hoje pela França, que viveu um conflito racial violento na metrópole. Ele estudou medicina na França e se especializou em psiquiatria. Sofreu injustiças de base racial durante toda a sua vida universitária e depois como psiquiatra. Um evento injusto e bastante marcante foi a recusa do seu trabalho de conclusão de curso. A banca obrigou que ele provasse que era capaz de ser “isento” e “universal”. Daí, o trabalho intitulado inicialmente Ensaio sobre a desalienação do negro ter que ser substituído num prazo que não chegava a trinta dias — e  depois deu origem a Pele Negra, Máscaras Brancas. 

O caráter combativo e o espírito revolucionário de Fanon fizeram-no tomar uma decisão considerada pouco provável para um jovem psiquiatra. Preferiu deixar a Normandia, na França, onde trabalhava em um hospital psiquiátrico, para viver em Blida, cidade na Argélia, então colônia francesa, assumindo o hospital local. O filósofo agiu com a coerência performática de um revolucionário, isto é, são as ações que funcionam como fiadoras do discurso, não o contrário. Ele saiu da metrópole para ficar cara a cara com a alienação produzida pelos processos de colonização. 

O livro problematiza com radicalidade a produção do outro, como o sujeito negro está impedido de conjugar o pronome “eu”. O trauma psíquico colonial esmiuçado por Fanon não deixa dúvidas: o sujeito negro precisa de muitas máscaras brancas para existir, somente mascarado pode conjugar os verbos na primeira pessoa do singular. Como são muitas máscaras, o sujeito negro fica impedido de enxergar a si mesmo com o seu próprio olhar. 

O primeiro capítulo, intitulado “O negro e a linguagem”, descreve como as pessoas negras precisam aprender a língua da metrópole, não devem falar com sotaque se desejam ser reconhecidas como “gente de verdade”, o que implica também usar as categorias da colônia. O sentido de mundo, o sistema explicativo, a cultura e todos os elementos que atravessam a linguagem estão colonizados e as pessoas negras ficam impedidas de reconhecer, analisar e dizer a realidade por meio de uma linguagem que parta do reconhecimento da sua história e cultura. O sujeito negro vive a sua própria história como se fosse um estrangeiro. 

O segundo e terceiro capítulos tratam de relações inter-raciais, mais especificamente nos relacionamentos heterossexuais entre homens negros e mulheres brancas e entre mulheres negras e homens brancos. Mais uma vez estamos diante de uma máscara. O trauma psíquico colonial é muito violento e convoca o sujeito negro para uma fantasia racista. A dignidade do sujeito afetivo negro é ser amado por uma pessoa branca. Esse amor, advindo de uma branca ou de um branco, faz com que o homem negro e a mulher negra sejam dignos de enxergar a si como pessoas de verdade. O trauma psíquico colonial percebe a redenção no amor branco, um modo para que o sujeito negro se afirme como gente. A humanidade das pessoas brancas humaniza gente negra, ensina o trauma psíquico do racismo. 

Nos outros capítulos, Fanon não foge do eixo. Dentre suas conclusões parciais, o racismo é um fenômeno construído que ao ser enfrentado, desloca as pessoas brancas do seu lugar de “universalidade”. Pele negra, máscaras brancas é uma leitura indispensável para a formação intelectual de quem se interessa por compreender como os fantasmas da branquitude e, por sua vez, do colonialismo assombram todas as sociedades. Fanon faz um convite para um exorcismo revolucionário.

O livro é intenso, inteligente, bem argumentativo e que me deu uma verdadeira aula sobre o quanto é urgente fazer a diferença e ser antirracista na nossa sociedade doente.

Eu gostei muito!


Um Pouco Sobre o Autor:
Psiquiatra, filósofo, ensaísta e revolucionário, Frantz Fanon lutou junto às forças de resistência no norte da África. Sua vida foi dedicada em transformar as vidas dos condenados pelas instituições coloniais e racistas do mundo moderno.

Seus livros publicados no Brasil são:
  • Por Uma Revolução Africana
  • Escritos Políticos
  • Alienação e Liberdade
  • Pele Negra, Máscaras Brancas
  • Em Defesa da Revolução Africana
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Ivi Campos

45 anos. De todas as coisas que ela é, ser a mãe do André é a que mais a faz feliz. Funcionária Pública e Escritora. Apaixonada por música latina e obcecada por Ricky Martin, Tommy Torres, Pablo Alboran e Maluma! Bookaholic sem esperanças de cura, blogueira por opção e gremista porque nasceu para ser IMORTAL! Alguém que procura concretizar nas palavras o abstrato do coração.




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