3.4.19

Capitães da Areia (Jorge Amado)

Ficha Técnica:
Autor: Jorge Amado
País de Origem: Brasil
Número de Páginas: 296
Ano de Lançamento: 1937
ISBN-13: 9788535911695
Editora: Companhia das Letras

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 19º livro lido em 2019 e foi Capitães da Areia (Jorge Amado). Depois da experiência perfeita com o Dona Flor e Seus Dois Maridos no ano passado, não pensei duas vezes em ler outra coisa deste autor brasileiro que é um dos mais vendidos fora do Brasil. Já adianto que esta leitura me fidelizou completamente na obra do autor. Quero ler tudo dele!

Capitães da Areia nos traz um grupo de crianças de rua de Salvador que vivem num trapiche, uma espécie de armazém abandonado perto da praia. Eles chegaram ali por diferentes razões, mas todos têm algo em comum: o abandono. Se auto intitularam Capitães da Areia e são muito conhecidos na capital baiana pelos delitos que cometem diariamente. As pessoas têm medo porque eles roubam para sobreviver e eles têm medo das pessoas, que os olham como aberrações. São fujões que foram abusados, criaram sua própria justiça social e embora sejam foras da lei são extremamente honestos dentro do grupo. É um grupo diverso formado por órfãos ou abandonados, que nunca tiveram o amor de uma mãe ou de um pai. São brancos e negros. Não possuem estereótipo. Uns são bonitos, outros tem necessidades especiais, mas acima de tudo são crianças que precisaram virar adultos para sobreviver. O mundo não os desejou e por isso lhes dá as costas.


Cada um dos capitães da areia busca refúgio e conforto em uma das suas peculiaridades que também lhes dá nome: Pedro Bala, o líder do grupo, foi morar na rua após a morte do seu pai em uma greve. O Professor é fraco e franzino, busca refúgio nos livros e em seus desenhos; Gato é muito bonito e busca sua libertação no amor das prostitutas e na elegância; Volta Seca é garoto do sertão, busca seu conforto no cangaço, no ideal do sertão e na figura de seu padrinho, o cangaceiro Lampião; Sem-Pernas é deficiente, torna-se sarcástico e cruel porque nunca teve amor ou alguém para amar; Pirulito se volta para a religiosidade, para o amor de Deus.

O livro se desenvolve em nos apresentar cada um deles e nos mostrar o quanto eles precisam correr para comer, ter paz e sobreviver. Furtos, violência e até crimes bárbaros como estupro são realizados por estas crianças que não passam dos 14 anos e não conhecem outro mundo. 


O livro parece trazer uma abordagem contemporânea por se falar de crianças de rua, mas foi lançado em novembro de 1937 em uma dura crítica do autor para a sociedade da época. Por isso, a obra foi confiscada pelo governo e queimada em praça pública junto com outros livros, de outros autores também considerados subversivos. Na época desta apreensão o Brasil se encontrava sob o comando de Getúlio Vargas e é inegável o apelo comunista que a obra traz. O final desta história nos reforça isso quando vemos como cada um dos capitães teve a sua história concluída.

A história dos capitães da areia não é romântica, mesmo sendo poética. É uma denúncia social, uma crítica aos dogmas cristãos e ao descaso dos ricos com os pobres. É sem dúvida uma obra valiosa, relevante, consistente, bem desenvolvida e que nos leva a refletir sobre os nossos privilégios. Apesar de nos fazer rir em um ou outro trecho, o livro é uma história triste porque temos consciência de que é real para milhares de crianças. Décadas depois do lançamento desta história, ainda temos capitães da areia espalhados pelo Brasil e pelo mundo, sendo julgados a todo instante por uma sociedade hipócrita e obtusa.


Os personagens de Pedro Bala, Volta Seca, Gato, Professor, Pirulito e Sem-Pernas me fizeram entender o quanto existe de maturidade nos jovens que moram em nossas ruas e o quanto existe de infantilidade nos adultos que dirigem nosso país. Eles tão jovens e vivendo problemáticas tão sérias.  Tão independentes, tão homens, mas ainda carente de um afago. Sem dúvida, foram personagens que me cativaram por completo. 

É um livro forte, bonito, triste e que nos faz pensar. É uma história tão séria que o governo consciente da fragilidade do seu discurso, o retirou das prateleiras na época. É um livro infelizmente atemporal, que nos faz entender que o problema do abandono infantil e da violência que acarreta está longe de ser solucionado.

Eu adorei essa leitura e a recomendo sem medo de errar.


Um pouco sobre o autor: Jorge Amado é um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros de todos os tempos. Sua obra literária foi adaptada para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba por todo o Brasil. Seus livros foram traduzidos em 55 países, em 49 idiomas, existindo também exemplares em braille. Ele é o autor mais adaptado da televisão brasileira. Amado foi superado, em número de vendas, apenas por Paulo Coelho mas, em seu estilo - o romance ficcional -, não há paralelo no Brasil. Em 1994 viu sua obra ser reconhecida com o Prêmio Camões, o Nobel da língua portuguesa. Alguns de seus livros publicados são:
    • Tieta do Agreste
    • Gabriela, Cravo e Canela
    • Teresa Batista Cansada de Guerra
    • Dona Flor e Seus Dois Maridos 
    • Tenda dos Milagres
    • Mar Morto
    • Capitães de Areia

7 comentários:

  1. Oi Ivi! Li esse livro há muitos anos, ainda na escola, e me lembro que achei muito triste e pouco havia entendido. Lendo suas impressões agora, tenho certeza de que é um livro que eu preciso reler, e sei que terei uma visão muito mais madura e compreensiva sobre a história. Um grande romance, que foi impedido de circular, cheio de críticas e questões sociais, do século passado e ainda atemporal, precisa ser lido! Obrigada pela resenha!

    Bjoxx ~ Aline ~ www.stalker-literaria.com ♥

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  2. Nossa! Faz uma década no mínimo que eu não leio Jorge Amado. Desde o ensino médio. Tem livros nacionais clássicos excelentes e outros que foi uma tortura ler por obrigação. Jorge Amado, eu também gostei de Dona Flor e Seus Dois Maridos na época, hoje não seria mais uma leitura que me agradaria tanto. "Capitães da Areia" também li e amei. Pois através de livros assim podemos ver muito sobre nossa cultura e afins.

    Adorei sua resenha.
    Fiquei curiosa para ler mais resenhas nacionais de autores da velha guarda.
    Beijos.

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  3. Oii, tudo bem?

    Ainda não tinha lido nada do autor, mas depois da sua resenha eu vou colocar Capitães da Areia no topo da minha lista de desejados. É uma obra super relevante, que nos mostra uma realidade que muitos preferem ignorar.
    Eu amei sua resenha, quero muito começar a leitura. Obrigada por compartilhar!!

    Beijinhos!!

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  4. Oi, Ivi!
    Nossa, faz eras desde a última vez que li esse livro haha mas dei uma aula sobre ele durante o estágio da graduação, então a história ainda está fresca na minha memória. Jorge Amado é e sempre será um dos maiores autores do nosso país, sua escrita traz não só a crítica social marcante de seu tempo, mas a poética de um autor que sabia o que estava fazendo ao juntas as palavras. Capitães de Areia é, sem dúvida, uma das obras mais sintomáticas da realidade do nosso país. Beijos!

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  5. Uma crítica social atemporal pelo visto. Eu simplesmente amo esse livro, seja pela história em si seja pela reflexões que sua leitura é capaz de despertar e assim como você eu fui cativada por cada um desses personagens. Infelizmente essa foi a única obra do Amado que eu li, mas fiquei curiosa para ler Dona flor depois que vi que pra você foi uma experiência perfeita, vou pegar como sugestão.

    Abraços.

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  6. Olá!
    Ta aí um autor que não tenho curiosidade de conhecer mais obras além das que precisei ler nos tempos de escola.
    Acho que por mais que seja aclamado e tenha muitas críticas pertinentes a nossa sociedade, não seria o tipo de leitura que apostaria.
    Mas gostei de conhecer suas observações!

    Camila de Moraes

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  7. Oi, gostei muito de conferir suas considerações sobre esse livro. Eu já li ele há alguns anos, realmente é uma história forte, que não é bonita, mas é infelizmente real.

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