14.5.18

Todo Dia A Mesma Noite (Daniela Arbex)

Ficha Técnica:
Autora: Daniela Arbex
País de Origem: Brasil
Número de Páginas: 248
Ano de Lançamento: 2018
ISBN-13: 9788551002858
Editora: Intrínseca

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 22º livro lido em 2018, que foi Todo Dia A Mesma Noite (Daniela Arbex). Lembro do momento em que uma amiga me marcou na divulgação no facebook sobre a publicação do livro e no momento em que vi sua capa e li sua sinopse, disse em alto e bom som: PRECISO LER!

O livro traz uma reportagem sobre a tragédia de Santa Maria que aconteceu na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013, na qual 242 jovens morreram após o incêndio da boate em que estavam. A boate Kiss, uma das favoritas da juventude da cidade, pegou fogo após um membro da banda que estava se apresentando acender um sinalizador no palco, que atingiu a espuma que revestia o teto do local para abafar o som. Em função do local não ter saídas de emergência e da dificuldade da multidão encontrar a saída, uma vez que as luzes se apagaram, a grande maioria das mortes ocorreu devido a fumaça tóxica que a queima da espuma gerou.


Se você não morou embaixo de uma pedra desde 2013, você sabe o quanto esta tragédia abalou o Brasil. Cinco anos depois daquela noite triste e dolorosa, a jornalista Daniela Arbex resolveu publicar o livro, recontando aquela noite, sob a perspectiva de quem sobreviveu e das famílias cujos filhos, pais e mães morreram ali.

A narrativa do livro não é linear e isso causa uma sensação de confusão muito grande no leitor, tenho a impressão que foi de propósito para deixá-lo desorientado ao ler os depoimentos, como se estivesse vivendo aquela noite também. Foi a impressão que tive e compartilho com vocês que o livro, extremamente bem escrito e muito emocionalmente narrado, nos faz ter sensações muito intensas: dor, calor, sede, tristeza, revolta e também esperança.

Eu senti tudo isso enquanto lia e foram poucas as páginas em que eu não chorei desoladamente ao conhecer um pouco da intimidade daqueles jovens. Quando somos impactados por algo grande e doloroso assim, nos atemos algumas vezes somente as estatísticas: quantos morreram? Quantos se salvaram? Quantos culpados? Quantos, quantos e quantos. Números que muitas vezes são usados apenas para nos chocar. Mas quando cada um destes números ganha nome, profissão, curso e sonhos, a estatística perde força e a empatia fica mais fácil e íntima.


Todos os depoimentos registrados nas páginas deste livro estão situados sob o ponto de vista dos envolvidos na tragédia, convidados a compartilhar suas dores após o sinistro. São relatos carregados de sofrimento e saudade. Temos oportunidade de conhecer parte das histórias das vítimas. Conhecemos um grupo de cinco amigas que foram à boate para comemorar o aniversário de uma delas. Conhecemos o rapaz que gostava de se vestir com trajes típicos de um gaúcho do campo e que queria ter ido à boate vestindo suas bombachas e botas. Outro que conseguiu escapar do incêndio quase inconsciente e, de tão aturdido, não notou os próprios braços queimados, com a pele morta pendurada. Conhecemos o médico que se manteve fiel à sua obrigação de atender as vítimas mesmo tendo o próprio filho como uma delas. Os tantos celulares dos mortos, que tocaram por toda a noite, alguns por mais de 150 vezes, com os visores mostrando as palavras mãe, pai, casa, mana... São muitas as histórias que compõem o livro e todas elas extremamente tocantes.

A narrativa é contundente ao demonstrar o quão alto foi o custo para todas as pessoas que se envolveram naquele 27 de janeiro. Muitos familiares, amigos, profissionais de saúde, policiais e bombeiros seguem em tratamento psiquiátrico. Casais se separaram ante a ruína de suas famílias. Doenças mentais eclodiram e tentativas de suicídio foram a via final de um sofrimento tão profundo em que não é possível ver o fim da dor. Aqueles que generosamente compartilharam suas histórias, a despeito de todo sofrimento que elas suscitam, são abordados com camadas suficientes para que sejam, de fato, homens e mulheres identificáveis, críveis, inseridos em um cenário de abandono e reagindo humanamente a ele. A autora também não esconde a pior face do ser humano em passagens protagonizadas por aproveitadores baratos, religiosos insensíveis ao sofrimento dos pais e homens públicos que colocam “a política na frente da dor”. Existe respeito e dignidade, muito pertinentes nas descrições e no carinho pelo qual o texto de todo o livro se desenvolve.

Comecei essa resenha dizendo que eu PRECISAVA ler este livro porque eu lembro da manhã daquele domingo, quando minha mãe que estava passando férias na minha casa, me acordou por volta das 7 horas dizendo que algo tinha acontecido em Santa Maria e que eu precisava ver se conhecia alguém envolvido. Saí da cama de forma preguiçosa, liguei o computador e então tive acesso à catástrofe que aconteceu na cidade que tive a oportunidade de conhecer na época da faculdade e onde ainda moram amigos e conhecidos.


O livro é forte e intenso. A emoção de ler sobre mães que imaginavam os filhos se divertindo e curtindo a juventude, mas não conseguiram se despedir deles e o descaso das autoridades que investigaram as causas daquilo, é de despedaçar o coração. Muitos foram indiciados e tiveram suas denúncias engavetadas. E até o absurdo de pais e mães serem processados pelo Ministério Público que julgou que o trabalho deles era ineficaz.

Como disse, o livro nos faz sentir. É uma leitura que incomoda e nos deixa desconfortável diante da dor de pessoas que não conhecemos, mas que sabemos que existem e do lado de cá do livro, eu fiquei torcendo para que a justiça seja feita, para que os responsáveis paguem por esse crime e que mesmo com a dor da ausência, que essas famílias reencontrem a alegria de viver e reinventem seus momentos felizes.

Eu recomendo a leitura para todos. Foi a melhor do ano de 2018 para mim e quero que cada um de vocês tenha a mesma experiência que eu tive.


Um pouco sobre a autora: Daniela Arbex é uma das jornalistas do Brasil mais premiadas de sua geração. Repórter especial do jornal Tribuna de Minas há 18 anos, tem no currículo mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três prêmios Esso, o mais recente recebido em 2012 com a série “Holocausto Brasileiro”, dois prêmios Vladimir Herzog (menção honrosa), o Knight International Journalism Award, entregue nos Estados Unidos (2010), e o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina e Caribe (Transparência Internacional e Instituto Prensa y Sociedad), recebido por ela em 2009, quando foi a vencedora, e 2012 (menção honrosa). Em 2002, ela foi premiada na Europa com o Natali Prize (menção honrosa). Seus livros publicados são:
  • Holocausto Brasileiro
  • Cova 312
  • Todo Dia a Mesma Noite

12 comentários:

  1. Tudo bem Ivi? Costumo gostar de livros que trazem temas investigativos reais ou reportagem e a tragédia de Santa Maria foi algo que chamou atenção de muitos, inclusive minha. Jamais vou me esquecer do nome da boate ou mesmo do desespero de uma mãe, amiga minha, cujo filho tinha ido para a boate naquela noite.
    Essas emoções que transbordam às páginas através dos relatos de sobreviventes são muito importante nesse tipo de narrativa, pois nos faz sentir não apenas como leitor. Mas também como humanos.

    Obrigada por compartilhar suas impressões.

    Abraços,

    www.alempaginas.com

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  2. Um livro no minimo emocionante para quem não morou embaixo da pedra. Confesso que esse tipo de narrativa não é minha preferida, mas esse livro eu faria muito gosto em ler. Lamento as consequências que paira sobre a vida dos envolvidos na tragédia, infelizmente nossa sociedade esquece das coisas muito rápido e tudo isso é só mais um número na estatística nacional. Não conhecia o livro, mas espero ler, parabéns a autora Daniela Arbex, por retratar com veracidade algo que muitos deixaram pra lá.

    Abraços.
    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/

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  3. Olá!
    Essa leitura deve ser intensa e muito emocionante. Não conhecia essa história e a autora deve ter feito um grande mergulho dentro de toda essa tragédia e trouxe uma trama muito impactante.
    Com certeza é o tipo de leitura que me agradaria a fazer.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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  4. Olá Ivi, tudo bem?

    Eu vi algumas divulgações sobre este livro, mas acho que não teria estômago para lê-lo, pois foi algo que impactou profundamente a maior parte da população brasileira e até mundial. Conheço a escrita da Daniela, então sei que o livro está maravilhoso.

    Beijos

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  5. Oiii,

    Tenho certeza de que esta é uma leitura forte em muitos sentidos. Achei interessante o relato que trás diversos pontos de vista do sofrimento de quem perdeu pessoas amadas. Foi uma tragedia muito grande e que abalou realmente o país todo, mas como a maioria das situações deste tipo, sem muitas informações sobre os sobreviventes ou aqueles que perderam alguém. Anotei a dica e quando puder irei ler.

    Beijinhos...
    http://www.paraisoliterario.com

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  6. Oii.
    Eu tenho problemas com narrativas que não são lineares, raramente consigo me conectar com a história. Mas já li muitos comentários positivos sobre essa obra. Tenho curiosidade de ler, mas não sei quando vou conseguir.
    Amei o blog.
    Bjs Mary

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  7. Só sua resenha já me deixou emocionada! Me lembro bem dessa tragédia, do horror que foi acompanhar as coisas pela TV, mesmo estando bem longe de tudo, mesmo sabendo que eu não tinha nenhum familiar ou conhecido lá. Eram seres humanos. Pessoas morreram de uma forma terrível quando tudo o que queriam era se divertir. Familiares que foram destruídos pela perda. Foi uma tragédia enorme. Ainda me provoca angústia recordar.

    Consigo imaginar o quanto esse livro é tocante. Nossa! Se mesmo sem conhecermos as pessoas que morreram ou que ficaram marcadas de alguma forma já sofremos... ler sobre elas, sobre seus sonhos... isso é insuportável. :( Eu não aguentaria. Iria ficar muito mal com esse livro. Talvez eu arrisque a leitura um dia, mas sei que ficarei destroçada.

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  8. Oie, tudo bom?
    Gente, que tenso. Eu queria muito ler mas ficaria com medo de ficar desorientada. Eu adorei saber mais sobre, mas a capa poderia ter sido melhor elaborada.

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  9. Oi, Ivi!
    Eu lembro do caso dessa boate e fico arrepiada só de pensar nas vidas que foram perdidas ali. Não sabia do livro. Me lembrou um documentário, como se fosse algo para ser assistido, sabe? Acho que é algo até para se pensar.
    Bjs
    Lucy - Por essas páginas

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  10. Oi, Ivi! Tudo bem?
    Eu ainda não conhecia esse livro, mas é impossível não lembrar dessa tragédia. Confesso que não teria coragem de realizar esta leitura. Já não sou muito fã de livros de não-ficção, mas nesse caso deve ser um livro tão doloroso que não conseguiria ler. Só de imaginar tudo que essas pessoas viveram e como ainda sofrem pelo ocorrido, já fico com o coração apertado.
    De qualquer forma, adorei sua resenha e a forma sensível como falou sobre a obra. Deu para perceber o quanto foi uma leitura intensa.
    Beijos!

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  11. Olá Ivi,
    Foi um dos piores acontecimentos do Brasil, não é? Eu me recordo de como aconteceu e de como torci para que nada de tão ruim tivesse acontecido, mas o mal estava feito. Gostei muito da sua resenha e da emoção que você passou ao falar desse livro, deu para ver que ele mexeu muito com você. O fato de o livro não ser tão linear não me preocupa tanto, pois gosto dessa alternância. Acho que esse é um livro necessário e vou anotar para comprar e ler em breve.
    Obrigada pela dica!
    Beijos ♥

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  12. Olá . Não tinha ainda lido nada sobre este livro, mas achei ele bem necessário para que possamos entender mais o que houve naquela noite triste. Eu preciso ter essas mesmas impressões que você teve da obra e esse é um livro extremamente preciso para nossa história. Adorei a resenha.

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