17.8.20

Não Há Silêncio que Não Termine (Ingrid Betancourt)

FICHA TÉCNICA
Nome original: Même Silence a Une Fin
Autora: Ingrid Betancourt
Tradução: Antonio Carlos Viana, Dorothée de Bruchard, José Rubens Siqueira e Rosa Freire d’Aguiar.
País de origem: França
Número de páginas: 556
Ano de Lançamento: 2010
ISBN-13: 9788535917383
Editora: Companhia das Letras

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 55º livro lido em 2020 e foi Não Há Silêncio que Não Termine (Ingrid Betancourt), Este livro foi a minha segunda escolha para a Maratona de Releituras. A primeira vez que li este livro foi em 2011 e na época fiquei chocada com a descrição sincera, crua e dramática que a autora nos deu ao relatar os anos de cárcere na selva colombina quando foi sequestrada pelas Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.

Temos um livro de cunho político, mas também a catarse da dor de dezenas de seres humanos rebaixados a condição de pária. A obra de Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência colombiana em 2002 nos conta como ela e outros reféns foram mantidos em cativeiro até 2008. A obra mescla narrativa em primeira e terceira pessoa com ritmo ágil, como um thriller, a ponto do leitor não sentir o peso das mais de 500 páginas. Traz em primeiro plano a angústia de uma mulher privada da companhia dos filhos por longos anos, a tristeza de uma filha que perdeu o pai enquanto estava sequestrada e teve que guardar seu luto ao mesmo tempo em que era tratada como um animal pelos guerrilheiros. Um mês após o rapto, Ingrid ficou sabendo da morte de seu pai, o ex-embaixador da Unesco Gabriel Betancourt, ao receber comida de um guerrilheiro embrulhada em um pedaço de jornal que narrava o cortejo fúnebre. 


O sequestro começou em 23 de fevereiro de 2002, em uma viagem durante a campanha presidencial. A então candidata foi raptada pelas Farc – um dos grupos mais famosos da guerrilha no país -, na estrada que conduzia até a cidade de San Vicente de Caguan. Estava sem escolta, ordens do governo colombiano confiscaram os soldados que protegeriam a comitiva da candidata no último minuto, sob alegação de que a área estava desmilitarizada e era segura.

Ingrid foi sequestrada com sua assessora Clara Rojas e o livro narra os sucessivos confrontos com Clara e as tentativas de fuga que as duas empreenderam. Ingrid tentou fugir por quatro vezes e na última, ao ser questionada por um comandante da guerrilha sobre o porquê de não colaborar com a revolução, ela respondeu: “Você se julga no direito de tirar minha liberdade e eu tenho o dever de tentar reconquistá-la”. Ao longo dos anos, outros reféns se juntaram a Ingrid e Clara. 

Ingrid viveu prisioneira em um cenário verde que ganhou contornos de uma das estações do inferno de Dante Alighieri durante quase sete anos, até ser libertada em 2 de julho de 2008. Escondida em sucessivos acampamentos na selva amazônica, passou fome e frio, além de sofrer violência moral e física. Sua história ficou muito conhecida quando sua foto no cativeiro, presa em um dos acampamentos, correu o globo e chamou a atenção da opinião pública mundial. 

Com grande lucidez, a autora elaborou um dossiê com olhar crítico sobre o fracasso do ideal revolucionário diante do jogo do poder. Revelou ainda sua decepção com a condução do caso pelo governo de seu país, ressentindo-se do “abandono” legado aos reféns da guerrilha pelo presidente Uribe. Destaca os presidentes franceses Chirac e Sarkozy e o venezuelano Hugo Chávez, que tentou sucessivas negociações para a libertação dos reféns e conseguiu a soltura de Clara Rojas.


Quem espera uma descrição romântica da luta armada pensando na figura de Che Guevara, por exemplo, se choca com a crueza com que a narradora disseca as Farc, uma associação descrita por ela como corrupta, associada e financiada pelo narcotráfico, além de muito cruel. Ainda assim, o livro passa muito longe de ser apenas o espelho de revolta de uma ex-prisioneira. Embora condene os atos de brutalidade praticados por muitos dos guerrilheiros que lhe serviram de carcereiros e mostre que o ideal socialista da revolução cedeu lugar a interesses bem capitalistas como roupas boas e aparelhos eletrônicos, a autora não deixa de se questionar sobre o que faria se estivesse do lado oposto à mira do fuzil.

O livro fica intensamente reflexivo quando serve de autoanálise para uma mulher que encontrou na natureza selvagem da Amazônia uma prisão, mas também um santuário – tão assustador, silencioso e isolado quanto uma catedral – para se reconectar com Deus. Em alguns trechos, o misticismo da autora parece exagerado e exasperante, principalmente para leitores incrédulos como eu, mas quem pode saber como reagiria ao sofrimento enfrentado por ela? Na fé e em longas reflexões filosóficas, Ingrid encontrou a serenidade necessária para não enlouquecer, mas sobretudo para não se perder no labirinto criado pela guerrilha com o objetivo de quebrar a resistência moral dos prisioneiros.

Durante 2.323 dias, Ingrid Betancourt foi amarrada em troncos de árvores por correntes presas ao pescoço, se viu forçada a marchar debaixo de tempestades tropicais até os pés esfolarem, foi obrigada a fazer suas necessidades fisiológicas diante de homens que zombavam dela e não a chamavam pelo nome, desumanizando-a e se referiam aos prisioneiros como pacote, encomenda ou a carga. 

Em meio aos seus relatos, é impossível não sentir na pele, principalmente se for mulher, quando Ingrid descreve o constrangimento de tomar banho menstruada junto com os demais prisioneiros (homens e mulheres) e sempre sob a mira de uma arma.


A mesquinhez que a alma humana revela quando posta à prova e destituída dos seus confortos básicos também é tema recorrente ao longo do livro. Com lucidez, Ingrid expõe as próprias feridas, fraquezas e as dos companheiros de cativeiro, revelando as brigas infantis e desesperadas por comida ou por pedaços de plástico que serviriam de abrigo contra a chuva.

Mostra ainda as intrigas típicas do ambiente penitenciário, com as divisões entre preferidos e desafetos dos carcereiros e a arrogância daqueles que caem nas graças dos comandantes. Por nunca ter abaixado a cabeça para a guerrilha, foi duramente criticada pelos companheiros de cárcere e chamada pedante. Pagou por isso, sofrendo torturas dignas da Inquisição por cada ato de rebeldia que tinha o objetivo de manter sua integridade. Se recusava a virar “a carga” ou “o pacote”, embora tenha se sentido exatamente um nada nas crises de depressão.

A autora julga a todos ao seu redor sem pudores, mas principalmente, julga a si mesma num exercício de humildade quase insano. É perceptível que ela carrega um forte sentimento de culpa, provavelmente fruto da formação cristã que recebeu e das diferenças de classe tão demarcadas pelas condições extremas de vida em países em desenvolvimento, assim como fruto do choque em descobrir-se capaz de nas mesmas condições extremas, cometer os atos de barbárie que condena nos guerrilheiros. Ao perder tudo e ser reduzida ao estado bruto e primitivo do ser humano, só via dois caminhos: o embrutecimento ou a redenção pela solidariedade. 

O título do livro foi inspirado em um poema de Pablo Neruda e o trecho em que ela o explica é muito tocante. O livro foi escrito originalmente em francês e publicado primeiramente na França antes de ganhar o mundo.

Foi uma leitura dura, desconfortável, triste e que termina de forma emocionante com a libertação dela e de seus companheiros de cárcere. Me emocionei durante toda a leitura, mas ao ler os últimos parágrafos, fui atropelada por um choro convulsivo, forte e melancólico. Se em 2011 eu já havia sido impactada pela leitura, o efeito foi ainda maior hoje.

Amei!


Um pouco sobre a autora: Ingrid Betancourt Pulecio nasceu em Bogotá em 25 de Dezembro de 1961 mas teve sua vida escolar em Paris, na França. Hoje ela é senadora na Colômbia e ativista anticorrupção. Seus livros publicados no Brasil são:
    • Não Há Silêncio que Não Termine
    • Cartas à Mãe

10 comentários:

  1. Mulher, vou te dizer que estava procurando um livro escrito por mulher para o próximo Leia Mulheres..
    Adorei saber o cunho político dele. Gosto de livros que tem essa pegada..
    Quero mais

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  2. Olá, tudo bem? Não conhecia esse livro, mas a história parece ser muito boa, tirando a parte política, que não curto muito encontrar em livros, rsrs. Adorei a resenha!

    Beijos,
    Duas Livreiras

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  3. Oii!

    Uau, que livro denso!!!! Imagino o misto de sentimentos que você teve ao efetuar a leitura. Eu não imagino um décimo do que essa mulher sofreu e o quanto de gente já sofreu como ela. Gostei muito da resenha! Acho que é uma leitura necessária.

    Beijinhos,
    Ani
    www.entrechocolatesemusicas.com.br

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  4. Oi. :)
    Adoro livros que falem sobre relatos reais, senti a tensão ao ler sua resenha. Não conhecia a autora nem a obra, mas fiquei interessada em ler.
    Parabéns pela resenha, ficou ótima.
    Beijos.
    Manuscrito de Cabeceira

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  5. Oi, Ivi!
    Eu não conhecia o livro, nem a autora e muito menos o sequestro, mas fiquei interessadíssima na história.
    Como eu comentei, eu não tinha conhecimento desse sequestro, porém, fico imaginando o quão pesado deve ser a leitura.
    Já coloquei na lista e muito obrigada pela dica.
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com/2020/08/resenha-ps-ainda-amo-voce-livro-2.html

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  6. Nossa, que intenso!
    Gosto de leituras assim, cruas, mas nunca li uma história como essa.
    Sua resenha está surreal de incrível e eu fiquei bem impactada.
    Vou colocar na minha listinha, mas vou esperar o momento certo para ler. Livros assim eu não gosto de ler a qualquer momento. Tem que estar minimamente preparado. Rs

    Beijinhos e obrigado pela dica!

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  7. Oi, Ivy! Nossa, que história angustiante. Eu não sabia que ela tinha ficado refém por tanto tempo assim.
    Uma história realmente impactante. Quero ler um livro não ficção, talvez eu inclua este na lista.
    bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  8. Essa história parece ser forte, mas que segura o leitor nela. Confesso que estou bem curioso para saber da história na íntegra. Anotei a dica para ler em breve.

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  9. Olá Ivi, tudo bom?
    Nunca tinha ouvido falar desse livro e confesso que fiquei extremamente curiosa para realizar a leitura após conferir sua resenha. Quero muito conhecer a história de Ingrid e Clara, mesmo sabendo que não vai ser fácil, devido a temática e tudo o que passaram. Anotei a dica para uma futura leitura. Amei sua resenha e conhecer sua experiência de releitura ♥
    Beijos!

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  10. Oi Ivi, como está?
    Eu lembro que acompanhei toda a cobertura da libertação da Ingrid, mas nunca tinha me aprofundado na história como um todo. Gente, eu nunca tinha imaginado o sofrimento que ela passou por conta dessa gente podrida. Eu sabia que as FARC eram podres, mas o nível de maldade foi muito acima do que pensei!
    Um beijo de fogo e gelo da Lady Trotsky...
    http://www.osvampirosportenhos.com.br

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