9.7.21

My Brother’s Name is Jessica (John Boyne)

Ficha Técnica:

Nome Original: My Brother’s Name is Jessica
Autor: John Boyne
País de Origem: Irlanda
Número de Páginas: 240
Ano de Lançamento: 2019
ISBN13: 9780241376157
Editora: Penguin
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Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 47º livro lido em 2021 e foi My Brother’s Name is Jessica (John Boyne). Meu interesse por qualquer livro do autor é imperativo e me sinto muito frustrada em saber que seu último lançamento no Brasil foi em 2017 com o perfeito As Fúrias Invisíveis do Coração. No final de 2019 Uma Escada Para o Céu veio através da Tag Inéditos, mas sua publicação comercial ainda não saiu para o grande público e com isso, já sabendo de seus novos títulos fora do Brasil, tive que dar meus pulos e procurá-lo. Pagando caro no e-book em inglês, escolhi este livro para ser minha nova leitura do autor. Outro fato também me chamou a atenção sobre a leitura: a nota baixa no Goodreads e embora eu não dê atenção a isso, fiquei um pouco espantada com a reação dos leitores.

O livro nos traz o Sam, um menino de 13 anos que está vivendo uma situação peculiar em sua vida. Desde sempre, Sam viu no seu irmão Jason o modelo de ser humano perfeito. Sempre ouviu as histórias que os pais contavam sobre o quanto Jason queria ter um irmão e o quanto ele se doou para o pequeno quando ele nasceu. Toda a infância de Sam é marcada por momentos muito positivos na relação com Jason e sem dúvida, ele é o seu ponto de conforto, acolhimento e segurança dentro de casa enquanto os pais estão ocupados com suas próprias carreiras. A mãe em especial por ser política e ter grande popularidade, com a previsão de se tornar a primeira ministra da Inglaterra.

É então que Jason reúne a família e diz que ele não é um menino e sim uma menina trans, o que desestabiliza a família, em especial Sam, que mesmo sendo o grande admirador do irmão, não aceita essa realidade de forma fácil.

Foi aí que eu comecei a entender as razões que fizeram muitos leitores não apreciarem este livro. Aqui temos um personagem cis – menino que se reconhece como menino – contando como é difícil ter uma pessoa trans próximo a ele e o livro se desenvolve sobre o quanto o fato de Jason ser uma menina trans é incômoda e constrange a vida de Sam. Os sentimentos de Jason em momento algum são colocados como prioridade e apesar da pouca idade de Sam, a imaturidade do irmão machuca e marginaliza a natureza de Jason.

Os pais têm a reação que imaginamos: ficam escandalizados, acreditam que é apenas uma fase ou confusão emocional e proíbem qualquer manifestação desse reconhecimento, mas particularmente, acreditei que Sam, amado e cuidado diretamente pelo irmão, seria o catalisador de apoio e suporte para a realidade de Jason, algo que não acontece. Isso torna a leitura angustiante porque eu queria saber os sentimentos de Jason e não me interessava sobre Sam.

O autor coloca a dificuldade de Sam como protagonista do enredo e isso é um pouco absurdo porque quem não está vivendo a transição de gênero – me perdoem se eu não estiver usando o termo correto – não precisa se sentir constrangido pela sociedade hétero, normativa e binária em que vivemos. A dificuldade não é da pessoa ou do familiar que tem alguém trans no seu meio familiar ou de convívio e a sua posição precisa ser apenas de apoio e acolhimento. O autor insere situações em que Sam é hostilizado na escola por ser irmão de uma menina trans, mas nem de longe, essa situação é maior que a de Jessica, nome que Jason escolhe para si. Embora a própria sociedade não permita que a gente aceite o outro diferente de nós, nosso desconforto com isso, originado sem dúvida por ignorância e falta de empatia, não deve ser o foco da circunstância.

Infelizmente, acho que o autor usou mal a perspectiva de Sam ao cair em várias armadilhas negativas. Em particular, sua incapacidade de aceitar Jason como Jessica e acabar por sabotar o irmão em uma caminhada que já não seria suave mesmo com o apoio dele. Teria sido interessante acompanhar uma conversa entre Jessica e alguém em quem ela realmente confiava e  foi uma pena que Sam não tenha sido essa pessoa para ela. A conclusão do livro também é frustrante, porque é rápida, pouco reflexiva, automática e com facilitações narrativas que reforçaram os erros cometidos ao longo do enredo.

O que Boyne fez é o que vemos no dia a dia: ouvimos o membro da família e não a pessoa que passa pelo processo. Talvez ter Sam contando essa história de uma posição de apoio também não teria funcionado, mas me pareceu muito problemático ter uma trama inteira sobre a "luta" de um menino cis de 13 anos para ter uma irmã trans. Se essa é a história, então por que não a lemos sob a perspectiva de Jessica?

Não indicaria o livro para pessoas trans ou que tem pessoas trans na família pois reforça estereótipos e silencia a verdadeira dor. 

Foi o meu primeiro desapontamento com o autor que ainda segue sendo o meu favorito do mundo. Essa experiência foi positiva por acreditar que não existem unanimidades, nem dentro da minha própria cabeça e coração.


Um pouco sobre o autor:
Um pouco sobre o autor: John Boyne nasceu na Irlanda em 30 de abril de 1971, foi professor de inglês em instituições importantes no Reino Unido, mas foi na escrita que se encontrou como profissional. 

Seus livros publicados no Brasil são:

O Menino do Pijama Listrado
O Garoto do Convés
O Palácio de Inverno
Noah Foge de Casa
O Pacifista
O Ladrão do Tempo
Tormento
A Coisa Terrível Que Aconteceu com Barbaby Brocket
Fique Onde Você Está e Então Corra
Dia de Folga (Conto)
A Casa Assombrada
Uma História de Solidão
O Menino no Alto da Montanha
As Fúrias Invisíveis do Coração
Uma Escada Para o Céu

Mais sobre o autor AQUI

5 comentários:

  1. Ai, eu sempre fico chateada quando eu adoro tudo que um autor escreve e de uma hora pra outra ele me decepciona.
    Dece ter sido uma leitura dificil por reforçar estereótipos de uma comunidade que já é tão sensivel né, que situação péssima.
    Mas como tu disse, é sempre bom saber que até nossos autores favoritos erram a mão nas coisas HAHAHAHAHA

    Adorei o post!

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  2. Oi, tudo bem? Não lembro de já ter visto alguma obra do autor. Creio que seus livros sejam bons para estar na lista de favoritos. Uma pena essa obra específica ter decepcionado você. Realmente, a visão mostrada no livro é de como os membros da família se sentem ao receber tal notícia ou vivenciar isso de perto. Um abraço, Érika =^.^=

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  3. Olá, tudo bem? Realmente ficaria extremamente incomodada na história justamente por calar a "dor" de alguém que está sendo afetado diretamente. Uma má escolha real do autor em fazer um livro assim hein, sem dar voz a quem está passando pelas mudanças. É frustrante quando nos decepcionando com um autor né? Uma pena, pois se ele tivesse elaborado melhor, poderia ser uma excelente história!
    Beijos

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  4. Oi!
    Conheço algumas obras do autor, mas gostaria de ler sobre os fatos e protagonizando Jason sendo ele o mais afetado em toda a situação é claro que de certa forma a família sofre com o impacto, mas a vida é um aprendizado, não podemos discriminar e sim aceitar a forma que a pessoa quer viver, já vai ser difícil em uma sociedade imagine ver essa situação dentro de casa. Obrigado pela dica, estou intrigada e curiosa sobre a resolução do enredo, parabéns pela resenha, bjs!

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  5. Oie, tudo bem ?
    Eu nunca li nada do autor, mas é inegável que ele é um autor que sempre trás teemas que precisam ser falados, mas pela sua resenha, dessa vez, acho que deixou a desejar. Acho que tinha um enorme potencial e é uma pena que não foi aproveitado de uma forma de dar voz.
    Beijos

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