22.6.20

Kindred – Laços de Sangue

FICHA TÉCNICA
Nome original: Kindred
Autora: Octavia E. Butler
Tradução: Caroline Caires Coelho
País de origem: Estados Unidos
Número de páginas: 432
Ano de Lançamento: 2018
ISBN-13: 9788592795191
Editora: Morro Branco

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 43º livro lido em 2020 e foi Kindred – Laços de Sangue (Octavia E. Butler). Este livro tem sido comentado e indicado há bastante tempo, mas sempre o deixei de lado por pertencer ao gênero de ficção científica que nunca me atraiu. Outro impedimento com a leitura era o fato de ser um clássico e eu sempre me intimido diante de livros assim, com aquele receio de não absorver tudo o que livro promete entregar.

O livro nos traz Dana, jovem negra de 26 anos que se muda com o marido Kevin para um novo apartamento em Los Angeles. Porém, Dana se sente mal, tem uma leve tontura e quando percebe, ela já não está na sala do apartamento, mas em um lugar parecido com uma floresta, próximo a um rio onde um menino está se afogando. Sem se preocupar com a estranheza da situação, ela tenta salvar o menino e quando consegue resgatá-lo da água, uma espingarda é apontada para a sua cabeça e ela é confrontada por aquela atitude. Dana viajou no tempo e foi parar nas terras de uma família branca, antes do fim da escravidão. O garoto que ela salvou era Rufus, que na iminência da morte, clamou por Dana, que foi até ele. Quando a vida dela é colocada em perigo, Dana volta para a sala onde estava e o marido está completamente atordoado porque a viu sumir. Ainda que tenha sido apenas alguns segundos para ele e tenha se passado mais tempo para ela na floresta, ele ficou muito assustado.


Mesmo tendo voltado ao ano de 1976, em que Dana é uma escritora e tem uma vida livre, ela volta para a época de Rufus todas as vezes em que ele está em perigo. Cada vez que Dana volta, fica mais tempo e só consegue retornar ao tempo atual quando sua vida é colocada em perigo novamente.

Conforme a narrativa avança, entendemos a ligação entre Dana e Rufus e torcemos para este erro no espaço-tempo da história seja corrigido.

A possibilidade de viajar no tempo sempre fascinou o homem e a literatura se encarregou de imaginar as diversas possibilidades de nos transportarmos para o passado ou para o futuro. O livro reflete sobre essa volta no tempo ser algo fora do nosso controle, que pode colocar nossa vida em risco e não ser tão fascinante assim. Nossa protagonista estará sujeita a viajar a um tempo em que ela não era sequer considerada um ser humano e terá que enfrentar essa situação com resiliência.

A palavra Kindred significa parentesco, família, ou como o subtítulo dado à obra em português, laços de sangue. Essa é a volta no tempo concedida para Dana, uma jovem negra dos EUA dos anos 1970 que não se sabe como nem porque é levada para o século XIX, onde terá contato com seus ancestrais. Se Rufus não for salvo todas as vezes que se coloca em perigo, a existência de Dana é ameaçada, por isso ela precisa salvá-lo, ainda que deseje várias vezes a morte dele.


Mais do que uma ficção científica sobre viagens no tempo, a história narrada em Kindred é um grande drama pessoal com interessantes contornos sociais. Em todos os momentos em que é chamada ao passado, Dana se vê às voltas com a figura de Rufus, personagem central para garantir o futuro dela. Tanto o futuro imediato ali na fazenda escravocrata quanto a segurança das gerações que resultarão no nascimento dela. Mas Rufus é branco, filho do dono da fazenda e, consequentemente, passa a ser o proprietário temporário de Dana pelo tempo em que ela permanece no passado. 

A relação dos dois é um dos pontos altos trabalhados na obra e merece atenção especial na leitura. Afinal, a pessoa que te escraviza com todas as torturas funestas que a escravidão traz, é fundamental para que você nasça. Ao mesmo tempo, a convivência com essa pessoa, que a princípio poderia concentrar todo o seu ódio, desperta uma simpatia estranha, de difícil entendimento. A autora foge de estereótipos ou vinganças históricas em sua narrativa e opta por desenvolver personagens com forças e fraquezas humanas. Kindred não é um acerto de contas, mas uma história de seres humanos com todas as características que os compõem.

Dona de uma linguagem maravilhosamente envolvente, Octavia Butler nos conduz pelas idas e vindas de Dana e desnuda sem julgamentos o horror de uma época. A personagem negra acostumada com a liberdade do século XX sofre literalmente na pele a tortura pela qual seus ancestrais passaram ao mesmo tempo em que convive e conhece os dramas, as tristezas e as motivações de cada um. A galeria de personagens escravos não é coadjuvante neste livro. Cada um tem sua história de vida bem desenvolvida e ajuda fundamentalmente a compor o panorama da obra. Por pequenas atitudes que podem até passar despercebidas pelo leitor, fica explícito que nem sempre precisamos de grandes realizações para fazer a diferença. Às vezes uma simples conversa é suficiente para mudar algo em favor do outro.

Esses temas são muito aprofundados especialmente no modo como os personagens principais se relacionam. Kevin, por exemplo, é incapaz de entender as atitudes que Dana tem dentro de uma possibilidade de escolhas muito restrita, o que para mim foi muito significativo, por me fazer pensar se consigo realmente compreender uma opressão que não sinto.

Também há uma série de questionamentos incomuns sobre a escravidão, como o próprio “acostumar-se” com o mal, a passividade das pessoas sobre coisas que consideram errado e até que ponto o desejo de sobreviver é maior que o desejo de libertar-se, além de mostrar os efeitos distintos que a longa exposição a escravidão tem sobre os personagens.


Foi um livro que me surpreendeu por trazer um tema tão sério e relevante de uma forma tão simples e original. A narrativa é fluida e simples, porém, cheia de intensidade em sua reflexão. Ao concluir a leitura, entendi que este é o tipo de história que precisa ser contada, discutida e nunca esquecida. Seria interessante se professores colocassem esse livro como leitura obrigatória em suas aulas.

Amei!!!


Um pouco sobre a autora: Filha de um engraxate e uma empregada doméstica, a Grande Dama da Ficção Científica nasceu na Califórnia, em 1947. Aos 12 anos, assistiu ao filme “A Garota Diabólica de Marte”, que era tão ruim, mas tão ruim, que mudou completamente sua vida. Octavia decidiu que contaria histórias melhores do que aquela e assim começou sua jornada como escritora. A autora precisou lutar contra a pobreza, a dislexia e o racismo para receber um diploma universitário e foi a primeira mulher negra norte-americana a conquistar o sucesso em uma área da literatura dominada por homens: a ficção científica. Ao longo de sua carreira, foi laureada com o MacArthur Fellowship, Hugo, Nebula e Locus Awards, além de ser indicada à prêmios por mais de 20 vezes. Representava em seus livros heroínas negras e explorava temas como raça, empoderamento feminino, divisão de classe, sexualidade e escravidão. Em 2010, quatro anos após sua morte, foi inserida no Hall da Fama da Ficção Científica, em Seattle. Sua obra continua tão relevante, que ainda hoje é objeto de estudo e seu trabalho e vida ganharam uma magnífica exposição na The Huntington Library, na Califórnia. Alguns de seus livros publicados no Brasil são:

    • Kindred – Laços de Sangue
    • A Parábola dos Talentos
    • Ritos de Passagem
    • Sons da Fala
    • Despertar
    • A Parábola do Semeador

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