29.4.20

O Corcunda de Notre Dame (Victor Hugo)

Ficha Técnica:
Nome Original: Notre Dame de Paris
Autor: Victor Hugo
País de Origem: França
Tradução: Eduardo Brandão
Número de Páginas: 375
Ano de Lançamento: 1831
ISBN-13: 9788582850800
Editora: Três

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 29º livro lido em 2020 e foi O Corcunda de Notre Dame (Victor Hugo). Tenho este livro na estante há muito tempo e nunca me animei muito em ler, até incluir o imenso Os Miseráveis na minha lista de leitura para 2020 e ter a brilhante ideia de ler algo menor do autor antes de encarar este calhamaço. A solução para isso foi O Corcunda de Notre Dame, livro publicado em 1831 e que traz um enredo passado no período antes do Renascimento.

Com o título original Notre-Dame de Paris ou Nossa Senhora de Paris, é considerado o maior romance histórico do autor e foi um de seus grandes sucessos, traduzido para vários idiomas. Circulou por toda a Europa e ganhou três adaptações cinematográficas, sendo o clássico da Disney (1996) a mais conhecida. Tenho muito carinho pelo desenho, porém ao ler o livro, descobri que a adaptação infantil tem muito pouco da obra original e toda a experiência de leitura foi uma grande desconstrução.


Passada em Paris durante a época medieval, a narrativa tem lugar na Catedral de Notre-Dame, a principal igreja da cidade neste período. É lá que Quasímodo, uma criança que nasceu com deformações no rosto e no corpo, é abandonado pela família. O personagem cresce se escondendo do mundo que o maltrata e rejeita, e se torna sineiro da catedral a mando do arcebispo Claudde Frollo. Na época, a capital parisiense estava repleta de cidadãos em situações extremamente precárias, muitos dormiam nas ruas e pediam dinheiro para sobreviver. O local não possuía nenhuma força policial, sendo apenas patrulhado por alguns guardas do Rei e membros da nobreza que encaravam os mais desfavorecidos com desconfiança, como um perigo social.

Entre a camada discriminada da população, estava Esmeralda, uma moça cigana que ganhava a vida dançando em frente da igreja. Frollo vê Esmeralda como uma tentação para a sua carreira eclesiástica e ordena que Quasímodo a sequestre. O sineiro acaba se apaixonando pela moça, que é resgatada por Febo, agente da guarda real, por quem ela se apaixona perdidamente.

Os personagens são todos tridimensionais. Frollo não é vilão o tempo todo e embora seja o antagonista, tem rompantes de compaixão. Quasímodo também não é bonzinho em todo o tempo, revela uma faceta sombria em alguns momentos. Se existiu um personagem que me surpreendeu de forma negativa foi o Febo porque ele é uma definição clássica de “boy lixo” e em nenhum momento é sequer parecido com o príncipe encantado que Esmeralda imaginava. Egoísta e inconsequente, em nenhum momento é a proteção que Esmeralda desejava.

Em contrapartida, Esmeralda também não é empoderada e independente. O amor louco que sente por Febo a deixa insana e coloca em risco toda a sua existência, são tantos erros cometidos por ela que é impossível desejar que termine a história bem com Febo. 


Esse romance não é exatamente o fio condutor de todo o enredo. Temos uma variedade de subplotes que dinamizam a história. A própria história de vida de Esmeralda que sonha em encontrar sua mãe verdadeira e a existência de um grupo de teatro, um alívio cômico em diversas partes do livro, dão um ritmo de leitura interessante para esta obra.

As descrições formam uma característica bem interessante no livro porque Paris é descrita como se estivéssemos em um voo panorâmico e realmente conseguimos visualizar todos os detalhes da igreja em questão, bem como da cidade que a hospeda. Em um primeiro momento, achei essa parte muito cansativa e chata, porém, fez muito sentido do meio do livro para frente e confesso que voltei algumas vezes para essa descrição a fim de entender determinadas passagens. Isso deixou o fluxo de leitura truncado, mas não foi ruim porque o próprio livro me serviu como uma leitura de apoio.

Victor Hugo não se centra propriamente em Quasímodo. Aliás, o personagem só surge no título em 1833, com a tradução inglesa. A obra se passa no ano de 1482 e pretendia ser um retrato da sociedade e da cultura francesa do século XV, funcionando enquanto representação histórica do período. A narrativa é passada na catedral de Notre-Dame e o edifício recebe especial atenção durante todo o livro. Uma vez que a igreja era a principal da região, é apresentada por Victor Hugo como o coração da cidade, o local onde tudo acontecia. Ali se cruzavam os destinos de pessoas de todos extratos sociais: os sem-abrigo, os miseráveis, o clero, os fidalgos, os bandidos, os guardas, os nobres e até o rei Luís XI.

Enquanto espaço comum na vida de todos os parisienses, a catedral oferecia um retrato abrangente do panorama social da época. É também apontada como um local de bondade e amor pelo outro, onde os órfãos, os criminosos e todos aqueles que precisavam de se refugiar encontravam abrigo. Por outro lado, ali aconteciam ações que contrariavam a fé cristã e os valores que eram pregados pela religião.


A corrupção está presente no próprio clero representado por Claudde Frollo e suas ações conduzem à incriminação de Esmeralda, que por ser considerada uma “cidadã de segunda categoria” é automaticamente vista como culpada. Assim, também é possível ver um sistema monárquico onde o povo era oprimido, a justiça estava na mão dos ricos e poderosos e se manifestava através de espetáculos públicos de mortes e torturas. O livro mostra também uma sociedade ainda muito marcada pela ignorância e pelo preconceito que rejeita tudo aquilo que é diferente, considerando-o feio ou perigoso.

A atenção que Victor Hugo dedica à Catedral de Notre-Dame em toda a obra faz com que muitos apontem que o edifício é o verdadeiro protagonista. Quando escreveu Notre-Dame de Paris, Victor Hugo estava preocupado com o estado precário da catedral, que enfrentava problemas na sua estrutura. O seu objetivo era chamar a atenção dos franceses para a riqueza estética e histórica do local, para que este começasse a ser restaurado.

O livro tem um final extremamente triste. As páginas finais são regadas de cenas melancólicas e eu não me verti em lágrimas somente porque estava sem acreditar que aquele seria o final para uma história que se desenvolveu totalmente sobre o sofrimento. Quando terminei a leitura, pensei em vários outros finais mais positivos que o autor poderia ter dado à narrativa, mas concluí que aquele era seu objetivo desde o princípio.

Foi um livro que me despertou uma série de sentimentos controversos, mas que trouxe uma experiência de leitura rica e renovadora, ainda que o livro tenha sido publicado há quase duzentos anos.

Gostei muito!!!


Um pouco sobre o autor: Poeta, dramaturgo e romancista, Victor Hugo é um dos mais importantes escritores franceses do período romântico. Terceiro filho de um major que, mais tarde, se tornaria general do exército napoleônico, Victor Hugo passou a sua infância entre Paris, Nápoles e Madrid. Em 1821, ano do seu casamento com uma amiga de infância, Adèle Foucher, publicou o seu primeiro livro de poemas, com o qual ganhou uma pensão, concedida por Louis XVIII. Um ano mais tarde publicaria o seu primeiro romance. Alguns de seus livros publicados no Brasil são:
    • Os Trabalhadores do Mar
    • Os Miseráveis
    • O Corcunda de Notre Dame
    • Noventa e Três
    • A Lenda do Belo Pecopin e da Bela Bauldour
    • Almas Crucificadas
    • O Homem Que Ri
    • O último dia de um condenado à morte
    • Conversando Com a Eternidade
    • Do Grotesco e do Sublime
    • O Solar de Apolo
    • Na Sombra e na Luz
    • Redenção
    • O Ogro da Rússia
    • Dor Suprema

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