9.10.21

A Cor do Leite (Nell Leyshon)

Ficha Técnica:
Nome Original: The Colour of Milk
Autora: Nell Leyshon
País de Origem: Inglaterra
Tradução: Milena Martins
Número de Páginas: 208
Ano de Lançamento: 2014
ISBN-13: 9788528615814
Editora: Bertrand Brasil

Oi gente que ama livros, hoje venho com a resenha do 76º livro lido em 2021 e foi A Cor do Leite (Nell Leyshon). Vi a indicação deste livro no canal da Patrícia Lima e com poucas palavras ela me convenceu que este livro me agradaria, sendo assim, tratei de fazer a leitura o mais rápido possível.

O livro nos traz uma menina de 15 anos que decide escrever a própria história. Mary tem a língua afiada, cabelos da cor do leite, tão brancos quanto sua pele, e leva uma vida dura, trabalhando com suas três irmãs na fazenda da família. Seu pai é um homem severo, que se importa apenas com o lucro das plantações. Porém, quando Mary é enviada, contra a sua vontade, ao presbitério para cuidar da esposa do pastor, ela comprovará que a vida podia ainda ser pior. Sem o direito de tomar as decisões sobre sua vida, tem urgência em narrar a verdade sobre sua história, mas o tempo é escasso e tudo que lhe importa é que o leitor saiba os motivos de suas atitudes. 

O livro apresenta uma narrativa desesperada de uma menina ingênua e desesperançosa, mas extremamente perspicaz e prática. Escrito em primeira pessoa e todo em letras minúsculas, o texto possui estrutura típica de quem ainda não tem o pleno controle da linguagem, o que entendemos que Mary acabou de ser alfabetizada e ela intercala a história com suas opiniões, deixando o enredo ainda mais angustiante

O enredo se passa entre 1830 e 1831, uma época na qual as mulheres não tinham valor algum. Mary é a mais nova de quatro irmãs, e o pai das meninas nunca as perdoou por nascerem mulheres. Ele as obriga a trabalhar na roça de sol a sol, sem descanso, e os dias se sucedem iguais, sempre cansativos, muitas vezes com castigos físicos. Mas Mary está acostumada com essa vida, aceita-a como sua com uma maturidade e resignação extraordinárias para sua idade. Sempre de cabeça erguida, Mary está acostumada a dizer o que pensa, até mesmo para o pai bruto, e por isso sofre toda sorte de castigos e humilhações, mas jamais abaixa a cabeça, apesar de ser obediente. A personagem mostra que há uma grande diferença entre obediência e submissão. Talvez sua única felicidade seja realmente as conversas e a companhia com o avô inválido, que tem a língua tão ferina quanto Mary, o que rende diálogos excepcionais durante o livro.

Mary é obrigada pelo pai a trabalhar na casa do pastor. É claro que ela não vê a cor do salário, que é integralmente repassado ao pai, e obviamente ela não tem escolha a não ser ir para uma casa estranha, afastando-se da família. Alguns podem dizer que isso foi bom para ela, afinal, ela tinha roupas limpas e comida quente lá, e até mesmo a companhia amável da esposa adoentada do religioso, que acaba por nutrir um grande carinho pela menina. Mas essa não é a questão: o fato é que Mary não queria isso, simples assim. Ela queria continuar na sua casa, na sua cama, com a sua família, por mais que a vida fosse dura, por mais que as coisas não fossem perfeitas. 

A obra é ao mesmo tempo deliciosa e dolorosa de ler. Deliciosa por ser repleta de cenas inteligentes e sacadas brilhantes, por Mary ser essa personagem incrível, complexa e real, que encarna a dor de ser mulher com maestria, que exala sabedoria em sua aparente ignorância. Dolorosa pela vida repleta de sofrimento e a dor pungente de Mary não ser mera ficção; e não é só por isso ter acontecido em uma época que já passou, mas sim por isso continuar acontecendo. É tolo quem pensa que as mulheres não são mais oprimidas, que não há preconceito, violência e rejeição contra um ser humano apenas por ele ser do sexo feminino, mesmo na nossa suposta época moderna. 

Forte e sensível, belo e visceral, feminista e humano. Esses são apenas alguns dos muitos adjetivos do livro que foi fracamente divulgado, mas que traz uma história poderosa, com final melancólico e injusto.

Eu adorei!


Um pouco sobre a autora: Nell Leyshon é uma escritora britânica nascida em Glastonbury, Somerset. Aos onze anos, ela se mudou para uma pequena vila agrícola nos arredores de Somerset Levels. Suas primeiras tentativas de romance foram com um bebê no colo. Enquanto lutava para escrever prosa, ela conseguiu uma comissão da BBC Radio 4 para escrever um drama de rádio, "Milk", que ganhou o prêmio Richard Imison de melhor primeira peça de rádio. Sua segunda peça, The Farm, foi vice-campeã do Prêmio Meyer Whitworth. No Brasil A Coir Do leite é o seu único livro publicado.

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